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terça-feira, 27 de julho de 2010

Série: De Exu a Oxalá


O candomblé é uma das poucas religiões, se não a única, que não segue um livro doutrinador ou algo do gênero como a Bíblia, o Alcorão, ..., tendo seus preceitos repassados oralmente. Sendo assim muita coisa se perde, outras se agregam e na maioria das vezes não se chega a um senso comum.


Baseado nisso resolvi escrever uma série que aborde as características dos Orixás na qual eu possa expressar aquilo que vejo, leio, ouço e vivo, as minhas experiências com as divindades africanas. Não quero com isso que o que aqui for escrito seja tomado como verdade absoluta, apenas leia-se que esta é a minha opinião pessoal. Sugiro no entanto que os interessados em conhecer mais procurem as variadas literaturas específicas que existem sobre o assunto para aprofundarem seus conhecimentos.

Todos os direitos sobre os textos são reservados a mim, o autor.

Boa Leitura a todos!

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

domingo, 25 de julho de 2010

Dança Negra Contemporânea Brasileira

A formação da cultura brasileira é fruto da fusão das tradições de povos de diferentes origens étnicas, sendo que o modo de participação de cada um desses povos são elementos basilares e constitutivos da cultura brasileira sendo esta, portanto, resultado da miscigenação ocorrida entre indígenas, africanos e europeus.

Quando se pensa em cultura é necessário enfatizar que esta é o resultado de tradições orais e escritas, sedimentadas nas mais diferentes formas, transmitidas geração a geração formando uma teia de informações que não devem (nem podem) ser perdidas ou esquecidas. Nesse tear que é a construção da história de uma sociedade a cultura atua como cimento unindo pontos, dando forma, redimensionando o imaginário em prol da difusão de um senso coletivo comum - a cultura popular. Como lembra Chauí "a cultura popular pode ser a capacidade de apresentar idéias, situações, sentimentos, paixões e anseios universais que, por serem universais, o povo reconhece, identifica e compreende espontaneamente. Nesse entendimento, cultura é também o modo das pessoas conviverem, se relacionarem, se expressarem, trabalharem, brincarem, contarem estórias e dançarem".

A herança escravista e o fato do Brasil ter sido o último país ocidental a abolir o regime escravocrata - que aqui durou quase 400 anos - são fatores que fazem com que alguns estudiosos apontem-nas como causas para o não reconhecimento da cultura afro-brasileira como parte legitima, constitutiva e representativa da cultura brasileira. Sendo assim, é preciso repensarmos a cultura negra enquanto formadora da identidade da dança afro-brasileira. Ao contrário das outras danças, a dança de origem negra é altamente simbólica, carregada de signos, significados e significantes que, independentemente da dicotomia entre nações de candomblé, trazem em si uma poderosa representatividade perante as histórias, mitos e lendas das quais são oriundas.Isso acaba fazendo com que a dança afro seja vista como exótica, folclórica ou mesmo sensual quando, na verdade, beira mares bem diferentes destes lagos.

Prefiro referir-me a partir de agora à "dança afro" como Dança Negra Contemporânea Brasileira. Explico.

O termo Dança Negra Contemporânea traz em si mais objetividade ao referir-se ao legado cultural e civilizatório da África Negra, de onde é oriundo. As coreografias do Yaônilé mais que puramente elementos simbólicos carregam o ar da dramaturgia que é um dos príncipios éticos-estéticos da cultura negra africana. De acordo com o escritor e pesquidador Cunha apud Silva e Calaça, "a arte africana transmite idéias, conceitos, valores grupais. Assim o artista deve sugerir e não representar; deve revelar a essência presente que está atrás daquelas formas criadas. Desta forma, o significado da arte africana é referência para análise conceitual e proposição coreográfica e dramatúrgica para a dança". Sob essa ótica, a religiosidade latente, o sagrado, o mistério, a simbologia e tantos outros referenciais culturais dos povos africanos constituem uma arte singular que redmensiona, transmite, sugere e comunica, "através da criação de formas e conteúdo estético, belo e expressivo também presentes nas danças".

"A dança africana remete à ancestralidade. A presença de elementos simbólicos, do mito, do rito é muito forte nestas comunidades e estão sempre presentes nas manifestações culturais dos povos africanos". De acordo com Asante apud Martins "existem sete princípios básicos presentes na dança africana, são eles: polirritmia, forma cíclica e circular, policentrismo, dimensionalidade, imitação e harmonia, sentido holístico, repetição".

O Yaônilé enquanto Cia de Dança Negra Contemporânea tem se engajado para tornar-se um centro de referências da cultura negra e afro-brasileira, desenvolvendo ações afirmativas que ajudem o nosso povo a melhor compreender a si mesmo, sendo um espaço de conhecimento, assimilação, aprofundamento e recriação das inúmeras manifestações artísticas negras do país.

E é sobre esse assunto que estarei participando de uma mesa redonda nos dias 13, 14 e 15 de Agosto com abertura do Yaônilé.

Aguardem a programação aqui no Blog.

Danilo Aguiar


Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

quarta-feira, 14 de julho de 2010

A dança sagrada



Trabalhar com a dança dos Orixás é uma grande responsabilidade por dois motivos: a representação de uma força que existe, se movimenta e se manifesta e, alheio a isso, a possibilidade de errar e desrespeitar a entidade.

O que se vê hoje em dia é uma banalização das danças sagradas transformando-as em atos banais, espetáculos de desonra a séculos de tradições das roças e abaças de candomblé. 

O Yaônilé, como um grupo cultural, não esquece de acercar-se de pessoas que conhecem a fundo a religião para acompanhar o trabalho realizado, corrigindo os erros, admoestando, ratificando os acertos.

Entendemos que trabalhar com uma cultura religiosa é refinar o plausível dos cultos, humanizando divindades para transcender à própria manifestação. Ignorar tais procedimentos, criando coreografias que não são fiéis às danças sagradas apenas para "fazer bonito" é descredibilizar a própria religião e que não se use a desculpa do não saber. Para fazer é necessário conhecer e conhecimento requer tempo e pesquisa. O homem que se isenta de suas responsabilidades se torna mais rude e grosseiro, além de negligente com a sua própria história.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

domingo, 27 de junho de 2010

Inspiração em Série #1 | Manoel Herculano

Todo espetáculo desenvolvido por mim para o Yaônilé é montado a partir das experiências vividas e compartilhadas por mim ou pessoas próximas (àquelas as quais tenho acesso imediato e pessoal) ou por figuras célebres e anônimos que, engajadas como nós na luta contra o preconceito, imortalizam suas obras nos mais diversos canais tornando-se eles os objetos das minhas constantes pesquisas na montagem dos meus espetáculos. Por isso resolvi dedicar neste blog um espaço aos poetas, intérpretes, compositores, escritores, pesquisadores, músicos, fotógrafos, artesãos, umbandistas, candomblecistas e qualquer outro artista ou religioso (a) que me inspire na montagem dos meus roteiros.

Este espaço que intitulei "Inspiração em Série" será constantemente abastecido com o resultado das minhas pesquisas audiovisuais, acadêmicas, fonográficas, empíricas, virtuais, oculares e ainda outras que me são inomináveis - com o intuito de divulgar as obras e seus respectivos criadores (a fim de dar-lhes os méritos e créditos devidos) e também manter um histórico do meu processo criativo que, a despeito dos que copiam o meu trabalho, é constante e inefável.

Reitero que sou abertamente a favor da democratização da informação séria com objetivos definidos e abomino o roubo da propriedade intelectual que em seu interím é tão mais palpável que qualquer bem material. O fazer artístico é a receita do entretenimento educativo, instrutivo e não deve ele servir de barganha para o plágio. O que produzo para o Yaônilé tem o objetivo de atuar como denominador comum de um público que respeito e para o qual nos dedicamos individual e coletivamente. E é para este público que manterei este espaço mesmo estando à mercê de o grupo novamente ser plagiado. Se a ocasião faz o ladrão? Eis o que vamos descobrir.

Danilo Aguiar.

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Inspiração em Série #1 traz um texto de Manuel Herculano que será reproduzido na abertura do novo espetáculo.

Afro-descendente

Dia desses eu acordei e me senti assim, como direi, um tanto afro-descendente

Isto, antes de supor que, acima de qualquer cor, sou gente
Sei lá, eu me sentia meio escuridão, meio excluso, meio eclipse
Faltando mais que um botão, um parafuso, talvez alguns chips
Coisas de quem faz confusão entre pessoas especiais e pessoas VIPs
E quando me olhei no espelho, um sorriso
O bastante para perceber o quanto tal questionamento era impreciso
Eu sou muito mais que um "pretinho básico", ou um "pão ázimo"
Não sou mágico, na verdade eu sou algo assim equivalente ao máximo.
Racismo já deu, e entre trevas e reservas, eu sou mais eu
E para quem não consegue me digerir, que também não tente me diminuir
Pois ouvirá em cima da hora: sai fora, vai ver se eu estou em Angola!
Será mesmo que só é legal ser negão no Senegal?
Eu não sou "escurinho" nem "uma pessoa de cor"
Também não precisa me chamar de "meu branco", muito menos de "doutor"
Eu não quero mudar de cor só por ter, eu quero ser
Quero conviver com todas as raças, sem dono, com todas as cores
Andar livre nas praças, no colorido do outono, na primavera dos amores
Podem me chamar de moreno, mulato, pedaço de mau caminho, gato
No samba, no bolero ou no forró, eu tolero sem dó, até cor de jambo
Mais que isso é insulto, aí eu fico muito puto e esculhambo
Porque pano é pano, tecido é tecido, e mulambo é mulambo.
Todos somos criaturas, branca ou negra, a raça é uma mistura
Eu sou negro, e se aos seus olhos não pareço um "deus grego"
Mas posso ser um "deus" africano, maranhense, indiano
E acima de todo esse blá blá blá, sou capaz de amar, sou brasileiro
E as cores do Brasil, feito um céu azul-anil, embelezam o mundo inteiro
Quanto à raça, tanto a minha, a sua, a do índio, a da cigana
Olha que graça, não tem drama, é uma só, a raça humana!


Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!



sexta-feira, 26 de março de 2010

Entre a cruz e a encruzilhada


Para que os negros pudessem exercer sua fé e reverenciar seus ancestrais na terra de Vera Cruz foi necessário que fizessem uma camuflagem de seus rituais sob o olhar católico de seus senhores. Era inevitável: ser um brasileiro vivo dependia do credo na Santa Madre Igreja, o catolicismo era a única região tolerada por aqui e a única forma de ser legitimado socialmente. Como a nação Brasillis era constituída também por índios, a esfera dos cultos recebeu um reforço das pajelanças tupis guaranis sendo incorporadas louvações a espíritos indígenas dentro da miscelânea.

Assim surgiu o sincretismo religioso, o paralelismo entre o catolicismo branco, a tradição dos orixás da vertente negra e símbolos e os espíritos de inspiração indígena, contemplando as três fontes básicas do Brasil mestiço, seguindo o calendário festivo da Igreja Católica, santificando os ritos e sacramentos católicos. Mesmo após o século XIX, quando os negros se viram livres, continuaram a afirmar-se católicos (medo, retaliação?) o que acabou fazendo com que o candomblé da Bahia, o Xangô de Pernambuco, o Tambor-de-mina do Maranhão, o Batuque do Rio Grande do Sul e outras denominações, fossem arroladas pelo censo do IBGE sob o nome único e mais conhecido: candomblé.