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sábado, 28 de maio de 2011

Exu põe fogo na casa e vira rei

Um dia mandaram Exu preparar um ebó
para conseguir fazer fortuna bem depressa.
Exu, depois de ter feito o ebó,
foi pra cidade de Ijebu.
Em vez de se hospedar no palácio do chefe local,
como pedia a tradição,
Exu ficou na casa de um homem de importante posição oficial.
De madrugada, quando todos dormiam,
Exu levantou-se devagarinho e fingiu que ia urinar no quintal.
Lá fora, Exu pôs fogo nas palhas que cobriam a casa.
Enquanto o telhado pegava fogo,
Exu gritava como louco, se fazendo de inocente.
Gritava que estava perdendo grande fortuna no incêndio.
Fortuna que havia guardado dentro de uma talha
que entregara à guarda do dono da casa.
Para os muitos curiosos que chegavam atraídos pelo sinistro
e
le repetia sem cessar a sua história.

Rapidamente tudo se queimou,
da casa só sobrando cinzas.
E assim, com toda a confusão que houve,
até o chefe da aldeia correu para o local.
Exu continuava clamando por causa do dano do incêndio.
Como se tratava de um prejuízo a um estrangeiro,
o chefe local resolveu pagar o suposto valor que Exu perdera.
Mas não havia na aldeia dinheiro suficiente
e então, para compensá-lo das perdas,
o rei, em detrimento de si mesmo, proclamou Exu rei dali em diante.
Assim exu foi feito o dono de Ijebu
e todos tornaram-se seus súditos.

 


[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, pág 47. Originalmente retirado de Agenor Miranda Rocha, 1928, p.2 [1999, pp. 35-6]; Pierre Verger, 1957, p. 113 [1999, p.126]; Deoscóredes Maximiliano dos Santos, 1963, pp. 107-8; D. M. dos Santos, 1981; Willfried Freuser e Mariano Carneiro da Cunha, 1982, pp. 4-5; Júlio Braga, 1988, p. 175; Braga, 1989, p.17.


Ebó - Sacríficio, oferenda, despacho.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

Pai Agenor, um homem de fé, sabedoria e força


Chamado de 'O Senhor do Futuro' em artigo da Academia Brasileira de Letras, Agenor Miranda Rocha foi (e continua sendo) uma lenda vida do candomblé no Brasil.

Pai Agenor, como ficou conhecido, nasceu em Luanda – Angola, em 08 de Setembro de 1907. Trazido muito pequeno para o Brasil, foi em Salvador que o jogo de búzios de Mãe Aninha lhe devolveu a vida quando os médicos disseram que ela lhe abandonaria. A extrema dedicação ao candomblé, que sempre permeou a vida de Pai Agenor, fez com que ele se tornasse uma das mais respeitadas personalidades religiosas por todas as lideranças de tradicionais terreiros do Brasil. Foi através dos seus búzios que decidiu-se a sucessão de importantes terreiros: Mãe Senhora e Mãe Menininha do Gantois; Mãe Oké e Mãe Tatá, na Casa Branca do Engenho Velho; Mãe Stella de Oxóssi, no Ilê Axé Opô Afonjá; Mãe Índia, no Terreiro do Bogun (o último grande jogo de sucessão antes de seu falecimento).

Filho de um diplomata com uma cantora lírica, foi professor catedrático, poeta, musicista e cantor lírico seguindo os passos da mãe. Um Vento Sagrado, expressão usada por Agenor Miranda para definir os Orixás, tornou-se também o tema de um documentário (Brasil, 2001, 93min) do diretor Walter Lima com participação de atores como Alessandra Negrini, Ingrid Guimarães e Camila Amado, além da narração de Othon Bastos sobre a vida de Pai Agenor, mostrando inclusive, sua recepção em Roma, pelo Papa. Também tornou-se título de uma biografia escrita por Muniz Sodré e Luiz Filipe de Lima com impressão pela Editora Mauad.

Pai Agenor morreu em 1994, 92 anos após ter sido salvo pelo axé dos orixás. Como bem disse Mãe Menininha do Gantois, "Quem não conhece Agenor, não conhece candomblé".


Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

terça-feira, 24 de maio de 2011

[LUTO] Abdias do Nascimento


Abdias Nascimento nasceu em 14 de março de 1914 em Franca, São Paulo. Filho de uma doceira e um sapateiro, desde cedo, já lutava por seus objetivos e ideais. Aprendeu com sua mãe a não deixar uma ofensa racial sem resposta. Adolescente, foi para São Paulo e logo engajou-se em movimentos afros, sendo um dos fundadores, aos 17 anos, do mais histórico deles, a Frente Negra Brasileira.

Graduou-se em Economia pela Universidade do Rio de Janeiro em 1938, onde, em 1944, fundou o Teatro Experimental do Negro, entidade que rompeu a barreira racial no teatro brasileiro. Estava preocupado com a exclusão nos palcos brasileiros. Numa viagem com amigos poetas, ficou chocado ao ver um ator branco pintado de preto, interpretando um personagem negro. Como ator, encenhou "Othelo", "Sortilégio", "Perdoa-me por me traires", dentre outras.

Organizou a Convenção Nacional de Negro em São Paulo e Rio de Janeiro em 1945, 1946, respectivamente, e o 1º Congresso do Negro Brasileiro no Rio de Janeiro em 1950. Entre 1949 e 1951, publicou o Jornal Quilombo.

Recebeu diploma pós-universitário pelo Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) em 1957. Dez anos depois, concluiu a pós-graduação em Estudos do Mar pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro. Em 1968, no mesmo ano em que fundou o Museu de Arte Negra no Rio de Janeiro, partiu para o exílio nos Estados Unidos, onde atuou como professor universitário. Foi lá que ele começou a se dedicar à pintura.

Participou em vários eventos internacionais do mundo africano e do 2º Festival Mundial de Artes e Culturas Negras e Africanas em 1977. Em 1980, voltou ao Brasil e contribui para a fundação do Partido Democrático Trabalhista (PDT). Um ano mais tarde, foi escolhido vice-presidente e fundou o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros. Como deputado federal entre 1983 e 1986, apresentou projeto de lei que previa a criação de cotas de 20% para negros na seleção de candidatos ao serviço público. A matéria porém jamais chegou a ser apreciada.

Entre 1991 e 1994, assumiu o cargo de secretário Extraordinário de Estado de Defesa e Promoção das Populações Afro-Brasileiras (Seafro) do Rio de Janeiro. Foi eleito, também em 1991, senador da República e ocupou o cargo de secretário de Estado de Direitos Humanos e da Cidadania do Rio de Janeiro em 1999.

Entre os títulos já concedidos ele por universidades estão o de Doutor Honoris Causa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), em 1993, e da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em 2000. Além disso, foi reconhecido pela Presidência da República, em 2004, aos 90 anos, como maior expoente brasileiro na luta intransigente pelos direitos dos negros no combate à discriminação, ao preconceito e ao racismo.

Morreu na noite desta segunda feira, 23, aos 97 anos, vítima de diabetes.

Reproduzimos o Programa Espelho, apresentado pelo ator Lázaro Ramos, na ocasião dos 95 anos de Abdias Nascimento. Vá em paz, nobre guerreiro.
Informações sobre Abdias - FGV - Site próprio - Dramaturgia Brasileira

                      


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Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Oiá transforma-se num búfalo

Oiá transforma-se num búfalo


Ogum caçava na floresta quando avistou um búfalo.
Ficou na espreita, pronto para abater a fera.
Qual foi sua surpresa ao ver que, de repente,
de sob a pele do búfalo saiu uma mulher linda.
Era Oiá. E não se deu conta de estar sendo observada.
Ela escondeu a pele de búfalo
e caminhou para o mercado da cidade.

Tendo visto tudo, Ogum aproveitou e roubou a pele.
Ogum escondeu a pele de Oiá num quarto de sua casa.
Depois foi ao mercado ao encontro da bela mulher.
Estonteado por sua beleza, Ogum cortejou Oiá.
Pediu-a em casamento.
Ela não respondeu e seguiu para a floresta.
Mas lá chegando não encontrou a pele.
Voltou ao mercado e encontrou Ogum.
Ele esperava por ela, mas fingiu nada saber.
Negou haver roubado o que quer que fosse de Iansã.
De novo, apaixonado, pediu Oiá em casamento.
Oiá, astuta, concordou em se casar
e foi viver com Ogum em sua casa,
mas fez as exigências:
ninguém na casa poderia referir-se a ela
fazendo qualquer alusão a seu lado animal.
Nem se poderia usar a casca do dendê para fazer o fogo,
nem rolar o pilão pelo chão da casa.
Ogum ouviu seus apelos e expôs aos familiares as condições
para todos conviverem em paz com sua nova esposa.
A vida no lar entrou na rotina.
Oiá teve nove filhos
e por isso era chamada Iansã, a mãe dos nove.
Mas nunca deixou de procurar a ppele do búfalo.

As outras mulheres de Ogum cada vez sentiam-se enciumadas.
Quando Ogum saía para caçar e cultivar o campo,
eles planejavam uma forma de descobrir
o segredo da origem de Iansã.
Assim, uma delas embriagou Ogum e este lhe revelou o mistério.
E na ausência de Ogum, as mulheres passam a cantarolar coisas.
Coisas que sugeriam o esconderijo da pele de Oiá
e coisas que alufiam ao seu lado animal.
Um dia, estando sozinha em casa,
Iansã procurou em cada quarto, até que encontrou sua pele.
Ela vestiu a pele e esperou que as mulheres retornassem.
E então saiu bufando, dando chifradas em todas, abrindo-lhes a barriga.
Somente seus nove filhos foram poupados.
E eles, desesperados, clamavam por sua benevolência.
O búfalo acalmou-se, os consolou e depois partiu.
Antes, porém, deixou com os filhos o seu par de chifres.
Num momento de perigo ou de necessidade,
seus filhos deveriam esfregar um dos chifres no outro.
e Iansã, estivesse onde estivesse,
viria rápida como um raio em seu socorro.


[Notas bibliográficas e Comentários]
Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, págs 297-9. Originalmente transcrito por Pierre Verger, 1980, p.292; Verger, 1981 (a), p.161; Verger, 1981 (b), pp. 45-8; Verger, 1985, pp. 37-41; Rosamaria Susanna Barbàra, 1999, p. 62; Ulli Beier, 1980, pp. 33-34.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

Xangô é reconhecido como orixá da justiça




Xangô e seus homens lutavam com um inimigo implacável.
Os guerreiros de Xangô, capturados pelo inimigo,
eram mutilados e torturados até a morte, sem piedade ou compaixão.
As atrocidades já não tinham limites.
O inimigo mandava entregar a Xangô seus homens aos pedaços.
Xangô estava desesperado e enfurecido.
Xangô subiu no alto de uma pedreira perto do acampamento
e dali consultou Orunmilá sobre o que fazer.
Xangô pediu ajuda a Orunmilá.
Xangô estava irado e começou a bater nas pedras com o oxé,
bater com seu machado duplo.
O machado arrancava das pedras faíscas,
que acendiam no ar famintas línguas de fogo,
que devoravam os soldados inimigos.
A guerra perdida foi se transformando em vitória.

Xangô ganhou a guerra.
Os chefes inimigos que havaim ordenado
o massacre dos soldados de Xangô
foram dizimados por um raio que Xangô disparou no auge da fúria.
Mas os soldados inimigos que sobreviveram
foram poupados por Xangô.
A partir daí, o senso de justiça de Xangô
foi admirado e cantado por todos.
Através dos séculos,
os orixás e os homens têm recorrido a Xangô
para resolver todo tipo de pendência,
julgar as discordâncias e administrar justiça.


[Notas Bibliográficas e Comentários]
Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi, publicado pela Cia das Letras, pág 245. Originalmente encontrado em Rita de Cássia Amaral, pesquisa de campo, São Paulo, 1986.


Oxé [osé] - Machado duplo de Xangô.

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Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Ossaim dá uma folha para cada orixá




Ossaim, filho de Nanã e irmão de Oxumarê, Euá e Obaluaê,
era o senhor das folhas, da ciência e das ervas,
o orixá que conhece o segredo da cura e o mistério da vida.
Todos os orixás recorriam a Ossaim
para curar qualquer moléstia, qualquer mal do corpo.
Todos dependiam de Ossaim na luta contra a doença.
Todos iam a casa de Ossaim oferecer seus sacrifícios.
Em troca Ossaim lhes dava preparados mágicos:
banhos, chás, infusões, pomadas,
abô, beberagens.
Curava as dores, as feridas, os sangramentos;
as disinterias, os inchaços e fraturas;
curava as pestes, febres, órgãos corrompidos;
limpava a pele purulenta e o sangue pisado;
livrava o corpo de todos os males.
Um dia Xangô, que era o Deus da justiça,
julgou que todos os orixás deveriam compartilhar o poder do Ossaim,
conhecendo o segredo das ervas e dom da cura.
Xangô sentenciou
que Ossaim dividisse suas folhas com os outros orixás.
Mas Ossaim negou-se a dividir suas folhas com os outros orixás.
Xangô então ordenou
que Iansã soltasse o vento e trouxesse ao seu palácio
todas as folhas das matas de ossaim
para que fossem distribuídas aos orixás.
Iansã fez o que xangô determinara.
Gerou um furacão que derrubou as folhas das plantas
e as arrastou pelo ar em direção ao palácio de Xangô.
Ossaim percebeu o que estava acontecendo e gritou:
"Euê uassá!"
"As folhas funcionam!"
Ossaim ordenou às folhas que voltassem às suas matas
e as folhas obedeceram às ordens de Ossaim.
Quase todas as folhas retornaram para Ossaim.
As que já estavam em poder de Xangô perderam o axé,
perderam o poder da cura.



O orixá-rei que era um orixá justo,
admitiu a vitória de Ossaim.
Entendeu que o poder das folhas devia ser exclusivo de Ossaim
e que assim devia permanecer através dos séculos.
Ossaim, contudo, deu uma folha para cada orixá,
deu uma euê para cada um deles.
cada folha com seus axés e seus ofós,
que são as cantigas de encantamento,
sem as quais as folhas não funcionam.
Ossaim distribuiu as folhas aos orixás
para que eles não mais o invejassem.
Eles também podiam realizar proezas com as ervas,
mas os segredos mais profundos ele guardou para si.
Ossaim não conta seus segredos para ninguém,
Ossaim nem mesmo fala.
Fala por ele seu criado Aroni.
Os orixás ficaram gratos a Ossaim
e sempre o reverenciam quando usam as folhas.



[Notas Bibliográficas e Comentários]
Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi, publicado pela Cia das Letras, págs 153-4. Originalmente encontrado em Lydia Cabrera, 1954, p. 100; Pierre Verger, 1957, p. 230 [1999, p. 228]; Roger Bastide, 1978, pp. 155-6; Verger, 1985, p. 24; José Flávio Pessoa de Barros, 1989, p. 23; Agenor Miranda Rocha, 1994, p. 78.


Abô [àgbo] - Infusão de água com folhas maceradas e outras substâncias como mel, sangue, etc.
Axé [àse] - Força mística dos orixás, força vital que transforma o mundo.
Euê [ewé] - Folha.
Ofó [ofó] - Cantiga de encantamento.


Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

Ogum mata seus súditos e é transformado em orixá

Ogum, filho de Odudua, sempre guerreava,
trazendo o fruto da vitória para o reino de seu pai.
Amante da liberdade e das aventuras amorosas,
foi com uma mulher chamada Ojá que Ogum teve o filho Oxóssi.
Depois amou Oiá, Oxum e Obá,
as três mulheres de seu maior rival, Xangô.
Ogum seguiu lutando e tomou pra si a coroa de Irê,
que na época era composto de sete aldeias.
Era conhecido como Onirê, o rei de Irê,
deixando depois o trono para seu próprio filho.

Ogum era o rei de Irê, Omi Irê, Ogum Onirê.
Ogum usava a coroa sem franjas chamada acorô.
Por isso também era chamado de Ogum Alacorô.
Conta-se que, tendo partido para a guerra,
Ogum retornou a Irê depois de muito tempo.
Chegou num dia em que se realizava um ritual sagrado.
A cerimônia exigia a guarda total do silêncio.
Ninguém podia falar com ninguém.
Ninguém podia dirigir o olhar para ninguém.
Ogum sentia sede e fome, mas ninguém o atendia.
Ninguém o ouvia, ninguém falava com ele.
Ogum pensou que não havia sido reconhecido.
Ogum sentiu-se desprezado.
Depois de ter vencido a guerra,
sua cidade não o recebia.
Ele, o rei de Irê!
Não reconhecido por sua própria gente!
Humilhado e enfurecido, Ogum, espada em punho,
pôs-se a destruir a tudo e a todos.
Cortou a cabeça de seus súditos.
Ogum lavou-se com sangue.
Ogum estava vingado.
Então a cerimônia religiosa terminou
e com ela a imposição de silêncio foi suspensa.
Imediatamente, o filho de Ogum,
acompanhado por um grupo de súditos,
ilustres homens salvos da matança,
veio á procura do pai.
Eles renderam as homenagens devidas ao rei
e ao grande guerreiro Ogum.
Saciaram sua fome e sede.
Vestiram Ogum com roupas novas,
cantaram e dançaram pra ele.
Mas Ogum estava inconsolável.
Havia matado quase todos os habitantes da sua cidade.
Não se dera conta das regras de uma cerimônia
tão importante para todo o reino.
Ogum sentia que já não podia ser o rei.
E Ogum estava arrependido de sua intolerância,
envergonhado por tamanha precipitação.
Ogum fustigou-se dia e noite em autopunição.
Não tinha medida seu tormento,
nem havia possibilidade de autocompaixão.
Ogum então enfiou sua espada no chão
e num átimo de segundo a terra se abriu
e ele foi tragado solo abaixo.
Ogum estava no Orum, o Céu dos deuses.
Não era mais humano.
Tornara-se um orixá.

[Notas Bibliográficas e Comentários]
Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi, publicado pela Cia das Letras, págs 89-91. Originalmente encontrado em Pierre Verger, 1957, p. 142 [1999, p. 152]; Ulli beier, 1980, pp. 34-5; Verger, 1980, p.286; Verger, 1981 (b), pp. 23-4; Verger, 1985, p. 15; Agenor Miranda Rocha, 1994, pp. 70-2.

Acorô [Kóró] - Pequena coroa usada por Ogum.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

Exu come tudo e ganha o privilégio de comer primeiro




Exu era o filho caçula de Iemanjá e Orunmilá,
irmão de Ogum, Xangô e Oxóssi.
Exu comia de tudo
e sua fome era incontrolável.
Comeu todos os animais da aldeia em que vivia.
Comeu os de quatro pés e comeu os de pena.
Comeu os cereais, as frutas, os inhames, as pimentas.
Bebeu toda a cerveja, toda a aguardente, todo o vinho.
Ingeriu todo o axeite-de-dendê e todos os obis.
Quanto mais comia, mais fome Exu sentia.
Primeiro comeu tudo de que mais gostava,
depois começou a devorar as árvores,
os pastos, e já ameaçava engolir o mar.
Furioso, Orunmilá compreendeu que Exu não pararia
e acabaria por comer até mesmo o Céu.
Orunmilá pediu a Ogum
que detivesse o irmão a todo custo.
Para preservar a Terra e os seres humanos e os próprios orixás,
Ogum teve que matar o próprio irmão.

A morte, entretanto, não aplacou a fome de Exu.
Mesmo depois de morto
podia-se sentir sua presença devoradora,
sua fome sem tamanho.
Os pastos, os mares, os poucos animais que restavam,
todas as colheitas, até os peixes iam sendo consumidos.
Os homens não tinham mais o que comer
e todos os habitantes da aldeia adoeceram
e de fome, um a um, foram morrendo.
Um sacerdote da aldeia consultou o oráculo de Ifá
e alertou Orunmilá quanto ao maior dos riscos:
Exu, mesmo em espírito, estava pedindo sua atenção.
Era preciso aplacar a fome de Exu.
Exu queria comer.
Orunmilá obedeceu ao oráculo e ordenou:
"Doravante, para que Exu não provoque mais catástrofes,
sempre que fizerem oferendas aos orixás
deverão em primeiro lugar servir comida a ele".
Para haver paz e tranquilidade entre os homens,
é preciso dar de comer a Exu,
em primeiro lugar.

[Notas Bibliográficas e Comentários]
Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi, publicado pela Cia das Letras, págs 45-6. Originalmente encontrado em Rita de Cássia Amaral, pesquisa de campo, São Paulo, 1986. Em todas as cerimônias do candomblé, Exu é sempre o primeiro a receber homenagens e sacrifícios. Outros mitos também tratam dessa prerrogativa de Exu.

Obi [Obì] - Noz-de-cola, fruto africano aclimatado no Brasil (Cola acuminata, Streculicea), indispensável nos ritos de candomblé; substituído em Cuba pelo coco.

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Olorum Colofé!

domingo, 17 de outubro de 2010

Jauperi tá chegando por aqui!


Todo mundo deveria ouvir o Jau. Uma voz inconfundível, um talento, um axé. Jau me inspira profundamente e de maneira arrebatadora. Paixão mesmo, é fato! Quando vi esse banner no Twitter, corri pra cá pra compartilhar com vocês. Ele vai estar aqui em Aracaju!


A voz de Jau tem cor. É preta e vem do Olodum, da Bahia, da África, do Mundo. A voz de Jau tem sabor, é doce como a cana-de-açúcar, flambada na cachaça pura dos engenhos do nordeste. A voz de Jau tem luz, uma luz profana e sagrada, abençoada por Deus e respeitada por todos que fazem da música, sua profissão. Uma voz que chega, para no ar, invade as ruas, ecoa nas ladeiras e conquista Roma. A voz de Jau tem poder.

Menino moleque, nascido no Rio Vermelho em 27 de setembro de 1969, com a benção de São Cosme e São Damião, criado entre 14 mulheres, Jauperi Lázaro é a afirmação de que a música baiana é a música mais pop do Brasil. Suas composições, interpretadas por ele e vários artistas, ensinam a entender a nova Bahia, uma Bahia que não quer perder seu passado, mas não se admite em outro lugar que não seja o Topo do Mundo.


Em 1988, passou a integrar oficialmente o Olodum, como autor e intérprete, e faz sua primeira viagem para a Europa, onde participou dos mais importantes festivais de música como Montreux, Womad, Metisse Musique, e tocou com astros da música nacional e internacional como Paul Simon, Tracy Chapman, Joan Baez, Djavan, Marisa Monte e Paralamas do Sucesso. A precocidade do menino do Rio Vermelho também se mostrou em seu primeiro trabalho profissional aos 19 anos, ao vencer, em 1989, o Festival de Música e Arte do Olodum (Femadum) com a música Olodum, sonho e profecia e carimbar seu passaporte para o mundo musical.

Um dos mais prestigiados compositores baianos da atualidade com canções gravadas pelos grandes nomes da música baiana, Jau se supera a cada projeto. Prova disto foi o sucesso meteórico da banda Afrodisíaco - que depois mudou de nome passando a se chamar Vixe Mainha -, projeto criado junto com o parceiro desde os tempos do Olodum, Pierre Onassis, em 2005.


Emprestando sua voz para projetos como a trilha sonora do filme Ó Paí, Ó (ao lado de Caetano Veloso), Jau se firma também como um cantor baiano que passeia pelo universo do cinema brasileiro, esta outra arte que avassala e surpreende o mundo...como, aliás, a voz de Jau . 


A voz de Jau tem pele, tem sangue e pulsa. Ela sangra a canção e a dor vira beleza. Uma voz que tem textura, que é líquida e chove sobre nossos rostos num dia de verão.

Jau pela primeira vez em Aracaju. Você vai perder?

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Olorum Colofé!

sábado, 16 de outubro de 2010

Besouro, O Filme


Um filme brasileiro de aventura, ação, misticismo e paixão, com a história de um mito da capoeira como pano de fundo, além de ter a cara, a cor, o sotaque e a gente da Bahia. A superprodução brasileira foi orçada em R$ 10 milhões e chama a atenção pelo fato de ser um filme de ação nacional, algo que o Brasil está pouco acostumado a fazer. Nome já conhecido de quem conhece a cultura da capoeira, presente em várias das suas ladainhas, Manoel Henrique Porteira, o Besouro, nasceu em 1897, em Santo Amaro - Recôncavo Baiano, e ganhou fama por ser um exímio capoeirista, além de sua postura nada subserviente em um Brasil ainda com fortes resquícios da época da escravidão. Um herói para o povo negro da época.






O filme é rico em história da capoeira, da resistência dos negros, do candomblé, conta uma parte da grande luta dos negros na valorização da sua etnia e cultura, a religiosidade afro-brasileira sem preconceitos, com respeito e reverência. No filme, os orixás são belos e nada tem a ver com os estereótipos preconceituosos que marcaram boa parte das abordagens realizadas até aqui pela cinematografia. A presença mágica dos orixás junto com as imagens da cidade de Igatu (BA) leva para o filme o que a Bahia tem de melhor, beleza, cultura e religiosidade. A fotografia do filme, feita pelo equatoriano Enrique Chediak, é perfeita, desde as lutas de capoeira até o besouro voando entre as barracas na feira. 


Besouro não é um filme para se ver como outros. O longa metragem de João Daniel Tikhomiroff nem precisava contar com sua bela direção de arte e com a atuação cheia de brilho de jovens atores – como Jéssica Barbosa – para se tornar memorável. O filme é um marco – símbolo de um país que começa a reencontrar-se com sua história. É isto o que faz de “Besouro” um dos mais importantes produtos da indústria cinematográfica brasileira nos últimos tempos. O filme baseado no livro Feijoada no Paraíso, de Marco Carvalho, contou com um orçamento nada modesto para os padrões brasileiros. E, desta forma, pôde lançar mão de recursos dignos de uma grande produção. O chinês Huen Chiu Ku – que trabalhou em filmes como Matrix, O Tigre e o Dragão e Kill Bill – foi o responsável pela coreografia das lutas registradas no filme. O herói negro salta, voa e é forte como qualquer herói de Hollywood. 


Finalmente o negro brasileiro chega às telas de cinema como herói, e não como bandido, vilão ou jogador de futebol.  “Besouro” não é um filme para ser apenas assistido, “Besouro” deve ser comemorado.

Para saber mais sobre Besouro acesse o Site Oficial.
Download do Jogo de Cartas Besouro (Brinde)
Canal Besouro no Youtube

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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Oxum Apará tem inveja de Oyá


Vivia Oxum no palácio em Ijimu.
Passava os dias no seu quarto olhando seus espelhos.
Eram conchas polidas
onde apreciava sua imagem bela.
Um dia saiu Oxum do quarto e deixou a porta aberta.
Sua irmã Oiá entrou no aposento,
extasiou-se com aquele mundo de espelhos,
viu-se neles.
As conchas fizeram espantosa revelação a Oiá.
Ela era linda! A mais bela!
A mais bonita de todas as mulheres!
Oiá descobriu sua beleza nos espelhos de Oxum.
Oiá se encantou, mas também se assustou:
era ela mais bonita que Oxum, a Bela.
Tão feliz ficou que contou do seu achado
a todo mundo.

E Oxum Apará remoeu amarga inveja,
já não era a mais bonita das mulheres.
Vingou-se.
Um dia foi à casa de Egungum e lhe roubou o espelho,
o espelho que só mostra a morte,
a imagem horrível de tudo o que é feio.
Pôs o espelho do Espectro no quarto de Oiá e esperou.
Oiá entrou no quarto, deu-se conta do objeto.
Oxum trancou Oiá pelo lado de fora.
Oiá olhou no espelho e se desesperou.
Tentou fugir, impossível.
Estava presa com sua terrível imagem.
Correu pelo quarto em desespero.
Atirou-se no chão.
Bateu com a cabeça nas paredes.
Não logrou escapar nem do quarto
nem da visão tenebrosa da feiúra.
Oiá enlouqueceu.
Oiá deixou este mundo.

Obatalá, que a tudo assistia, repreendeu Apará
e transformou Oiá em orixá.
Decidiu que a imagem de Oiá nunca seria esquecida por Oxum.
Obatalá condenou Apará a se vestir para sempre
com as cores usadas por Oiá,
levando nas jóias e nas armas de guerreira
o mesmo metal empregado pela irmã.

[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás, de Reginaldo Prandi, publicado pela Cia das Letras, págs 323-5. Originalmente encontrado em Reginaldo Prandi, pesquisa de campo, São Paulo, 1997. Nos candomblés, Oxum Apará usa roupas cor-de-rosa, com ferramentas feitas de latão, que são atributos de Oiá.

Egungum | Egum [Égún] - antepassado, espírito de morto, o mesmo que egungunm; alguns orixás são eguns divinizados.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!