Mostrando postagens com marcador lendas dos orixás. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador lendas dos orixás. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Legba carrega uma panela que se transforma em sua cabeça


Ifá andava triste e desolado,
tendo se desentendido com seu rei.
Ele consultou o oráculo para saber o que fazer.
Foi dito que fizesse uma oferenda
com tudo quanto era fruto redondo.
Mas o ebó deveria ser entregue por sua mãe.
Como a mãe de Ifá morava longe,
Ifá pagou a Legba um galo e uns doces para ele ir buscá-la.
Exu chegou à casa da mãe de Ifá
e disse que a levaria à casa de seu filho
desde que ela lhe pagasse alguma coisa.
Mas ela não tinha nada para oferecer a ele.
Exu disse que queria o bode de doze chifres
que tinha visto no quintal da casa dela.
Ela disse que o bode não era dela,
ela apenas o guardava.
Legba insistiu.
Legba tomou o bode e o matou.
O sangue do bode jorrou e era puro fogo
e o fogo tomou conta de Exu.
Ele consultou o babalaô
e foi dito que fizesse uma oferenda
com os órgãos internos do bode.
Ele o fez e em seguida se pôs a cozinhar a cabeça.
Mas a cabeça do bode não cozinhava,
por mais que a panela ficasse no fogo.
Ele tomou a mãe de Ifá e a panela
e resolveu voltar à cidade de Ifá, levando a mulher.
Usando um pano torcido,
Legba fez uma rodilha para carregar a panela nos ombros
e a panela grudou nele e se transformou em sua cabeça.
Naquele tempo Exu ainda não tinha cabeça.
Eles chegaram à casa de Ifá e a mãe narrou ao filho o ocorrido.
Ifá lamentou-se por também não ter cabeça.
Foi dito que se fizessem sacrifícios com frutas redondas
para ganhar um ori.
A mãe levou ao rei a cabaça contendo as frutas redondas.
O rei tomou um mamão e o partiu em dois.
Uma metade do mamão fixou-se entre os ombros
e transformou-se na cabeça do rei.
Assim foram nascendo as cabeças.
Exu foi o primeiro a ter o ori fixado nos ombros.
Precisa fazer sacrifício
quem quiser ter uma cabeça.

[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, págs 49 - 51. Originalmente encontrado em Bernard Maupoil, 1943, pp. 53-5; Juana Elbein dos Santos, 1976, pp. 214-5. Para os iorubás, a cabeça, o ori, é uma dádiva que recebe sacrifício, tradição mantida nos candomblés através do bori, cerimônia de dar comida à cabeça.

Ebó [ebò]: sacrifício, oferenda, despacho.
Ori [orí]: cabeça; destino.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Iansã é traída pelo Carneiro


Um dia Oxum e outro alguém queriam fazer mal a Iansã.
Colocaram o feitiço no bracelete de Oxum
e o puseram dentro de uma caixa
para que fosse entregue a Iansã.
Agbô, então, foi chamado para levá-lo a Iansã.
Agbô era o dono dos carneiros, dono dos agbôs.
Tudo o que corria no palácio era espalhado
por meio da língua de Agbô, o Carneiro.
mas Iansã, com sua arguta intuição,
pressentiu o que lhe vinha por meio de Agbô.
Ela, então, foi ao encontro do Carneiro
e na forma de um vento abriu a caixa
e trocou o bracelete por um pequeno pássaro.
Agbô foi um instrumento contra Iansã,
mas Iansã sentiu-se traída por ele.
Desde então Iansã odeia carneiros
e não aceita nem sequer comê-los.


[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi, publicado pela Cia das Letras, pág 300. Originalmente encontrado em René Ribeiro, 1978, pp. 47-9; Rita Segato, 1995, p. 405.

Agbô [agbò] – carneiro macho.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

Xangô ordena que primeiro saúdem seu irmão mais velho


Dadá Baiani Ajacá era o irmão mais velho de Xangô.
De caráter pacífico, deixava para seu irmão Xangô
o poder de enfrentar as lutas e maledicências que o incomodavam.
Xangô defendia o irmão com gana furiosa.
Xangô dava grandes festas no palácio de Oió
e a elas todo o povo acorria.
Quando todos se prostavam no chão para saudar Xangô,
ele os impedia e os mandava saudarem primeiro seu irmão mais velho.
Até hoje, quando se louva Xangô, é por hábito saudar Dadá Baiani.
Assim Xangô sempre estará satisfeito.
E Dadá também é senhor de muitas riquezas
e propicia tudo isso a seus devotos.

[Notas Bibliográficas e Comentários]


Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi, publicado pela Cia das Letras, pág 249. Originalmente encontrado em Pierre Verger, 1985, p. 30.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

Euá transforma-se na névoa



Euá era filha de Nanã.
Também filhos de Nanã eram Obaluaê, Oxumarê e Ossaim.
Esses irmãos regiam o chão da Terra.
A terra, o solo, o subsolo, era tudo propriedade
de Nanã e sua família.
Nanã queria o melhor para seus filhos,
queria que Euá casasse com alguém que a amparasse.
Nanã pediu a Orunmilá bom casamento para Euá.
Euá era linda e carinhosa.
Mas ninguém se lembrou de oferecer sacrifício algum
para garantir a empreitada.
Vários príncipes ofereceram-se prontamente a desposar Euá.
E eram tantos os pretendentes
que logo uma contenda entre eles se armou.
A concorrência pela mão da princesa transformou-se
em pugna incessante e mortal.
Jovens se digladiavam até a morte.
Vinham de muito longe,
lutavam como valentes para conquistar sua beleza.
Mas a cada vencedor, Euá não se decidia.
Euá não aceitava o pretendente.
Vinham novos candidatos e outros combates.
Euá não conseguia decidir-se,
ainda que tão ansiosa estivesse para casar-se
e acabar de vez com o sangrento campeonato.
Tudo estava feio e triste no reino de Nanã;
a terra seca, o sol quase se apagara.
Só a morte dos noivos imperava.
Euá foi então à casa de Orunmilá
para que ele a ajudasse a resolver aquela situação desesperadora
e pôr um fim àquela mortandade.
Euá fez os ebós encomendados por Ifá.
Os ventos mudaram, os céus se abriram, o sol escaldava a terra
e, para o espanto de todos,
a princesa começou a desintegrar-se.
Foi desaparecendo, perdendo a forma,
até evaporar-se completamente e transformar-se
em densa e branca bruma.
E a névoa radiante de Euá espalhou-se por toda a Terra.
E na névoa da manhã Euá cantarolava feliz e radiante.
Com força e expressões inigualáveis cantava a bruma.
O Supremo Deus determinou então que Euá
zelasse pelos indecisos amantes,
olhasse seus problemas, guiasse suas relações.

[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi, publicado pela Cia das Letras, págs 233-4. Originalmente encontrado em Rita de Cássia Amaral, pesquisa de campo, São Paulo, 1986. Em muitos candomblés, Euá é a patrona da virgindade e da pureza. Dizem mesmo que somente uma virgem pode ser iniciada em seu culto.

Ebó [ebò] – sacrifício, oferenda, despacho.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

Erinlé é acusado de roubar cabras e ovelhas



Em Ijebu viveu um grande caçador chamado Erinlé.
Ele era generoso e imbatível na caça.
Por isso era admirado pela maioria da população.
Mas havia alguns moradores que invejavam Erinlé
e que conspiravam para arruinar o caçador,
famoso pela caça de elefantes e de outros animais.
Decidiram roubar cabras e ovelhas do rei e culpar Erinlé.
O rei intimou quem soubesse algo sobre o roubo a dizê-lo.
Os conspiradores foram até o rei fazer a acusação.
Disseram que Erinlé roubava cabras e ovelhas,
escondia as peles em casa e dizia
que as carnes eram de animais selvagens.
O rei intimou Erinlé.
Houve um julgamento.
Os inimigos de Erinlé testemunharam contra ele.
O rei quis ouvir a defesa de Erinlé.
Houve testemunhos a favor dele.
Diante do impasse, o rei ponderou que Erinlé
parecia ser de fato um grande caçador,
mas teria que provar sua inocência.
Erinlé disse:
“Minha caça falará por mim.
Minha caça será minha testemunha”.
Erinlé foi até sua casa e trouxe coisas para o rei.
Erinlé trouxe as peles dos animais selvagens que havia caçado.
presas de elefantes e de javalis,
peles de gamos, veados e antílopes.
Então o réu reconheceu a inocência de Erinlé
e ordenou que ninguém mais tocasse no assunto.
Erinlé foi para casa, inocentado porém triste.
Erinlé nunca se conformou com a acusação que sofrera.
Erinlé pensava e não entendia a razão de tentarem desgraçá-lo.
Não quis mais caçar nem comer com os seus.
Em momentos de desespero fustigava o próprio corpo
com a sua chibata de cavaleiro, seu bilala.
Imaginava que seria acusado novamente
caso acontecesse outro roubo de animais.
Erinlé perdera completamente a vontade de caçar.
Então entrou na água de um rio próximo
e partiu de Ijebu, onde nunca mais foi visto.
E se tornou o orixá do rio.
Erinlé agora é o rio.
O rio Erinlé é Erinlé,
o orixá caçador que já não caça.

[Notas Bibliográficas e Comentários]


Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi, publicado pela Cia das Letras, págs 131-2. Originalmente encontrado em Harold Courlandes, 1973, pp. 163-5.



Bilala [bílàlá] – chibata usada por Otim e Oxóssi.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

Iá Mi são enganadas por Orunmilá


Um dia Orunmilá quis ir a Otá para descobrir os segredos das Iá Mi.
Ele procurou os babalaôs e consultou Ifá.
Orunmilá podia ir, disseram, mas tinha que fazer uma oferenda.
Assim, Orunmilá preparou uma peça de tecido branco para oferecer
e mais uma cabeça de serpente e um pombo branco,
ao que juntou quatro obis brancos e quatro obis vermelhos
e também azeite, pó branco de efum, pó vermelho de ossum
e uma cabaça.
Orunmilá deu tudo isso aos babalaôs e alegrou-se:
agora podia ir à cidade das Iá Mi.

Quando Orunmilá chegou ao mercado de Otá,
as feiticeiras se regozijaram: “A comida chegou”, disseram.
Porque elas queriam matar e comer Orunmilá.
Mas Exu, que faz o bem e o mal e transforma-se rapidamente,
veio em pessoa advertir as bruxas Iá Mi:
Orunmilá tinha um pássara mais poderoso do que os delas todas.
Dessa forma, as Iá Mi tiveram de levar seus pássaros
e submetê-los a Orunmilá.
Mas elas não queriam deixar de lutar.
As Iá Mi lançavam mau-olhado no corpo de Orunmilá.
Elas queriam matá-lo
porque Orunmilá conhecer todos os segredos delas.
Então Orunmilá consultou novamente Ifá e fez novas oferendas.
Preparou uma buchada, pegou um frango de penas arrepiadas
e também ecôs e búzios.
Os babalaôs de Orunmilá foram consultar Ifá.
Então eles chamaram as Iá Mi
e deram aquilo tudo para elas comerem.
E elas não puderam mais ver  Orunmilá nem pegá-lo.
Orunmilá as enganara.
Como eram ajés, isto é, feiticeiras,
as Iá Mi não podiam comer buchada,
pois tripa é seu euó, seu tabu,
e como frango arrepiado não pode voar para o telhado da casa,
as Iá Mi não podiam matá-lo.
Foi assim que Orunmilá enganou as Iá Mi Oxorongá naquele dia
e descobriu quase todos os segredos delas.


[Notas Bibliográficas e Comentários]
Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi, publicado pela Cia das Letras, págs. 351-352. Originalmente encontrado em Pierre Verger, 1992, pp. 41-3.


Ajé [Àjé] – feiticeira.
Euó [ewò] – interdição religiosa; tabu; quizila.
Ecô [eko] – bolinho de amido de milho branco ou amarelo embrulhado em folha de bananeira.
Efum [efun] – giz, pó branco.
Ossum [osun] – pó vermelho usado para pintar o corpo em certas cerimônias; giz.
Obi [obì] – noz-de-cola, fruto africano aclimatado no Brasil (Cola acuminata, Streculiacea), indispensável nos ritos do Candomblé; substituído em Cuba pelo coco.


Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Obaluaê tem as feridas transformadas em pipoca por Iansã



Chegando de viagem à aldeia onde nascera,
Obaluaê viu que estava acontecendo
uma festa com a presença de todos os orixás.
Obaluaê não podia entrar na festa,
devido à sua medonha aparência.
Então ficou espreitando pelas frestas do terreiro.
Ogum, ao perceber a angústia do orixá,
cobriu-o com uma roupa de palha que ocultava sua cabeça
e convidou-o a entrar e aproveitar a alegria dos festejos.
Apesar de envergonhado, Obaluaê entrou,
mas ninguém se aproximava dele.
Iansã tudo acompanhava com o rabo do olho.
Ela compreendia a triste situação de Omulu
e dele se compadecia.


Iansã esperou que ele estivesse bem no meio do barracão.
O xirê estava animado.
Os orixás dançavam alegremente com suas equedes.
Iansã chegou então bem perto dele
e soprou suas roupas de mariô,
levantando as palhas que cobriam sua pestilência.
Nesse momento de encanto e ventania,
as feridas de Obaluaê pularam para o alto,
transformadas numa chuva de pipocas,
que se espalharam brancas pelo barracão.
Obaluaê, o deus das doenças, transformou-se num jovem,
num jovem belo e encantador.
Obaluaê e Iansã Igbalé tornaram-se grandes amigos
e reinaram juntos sobre o mundo dos espíritos,
partilhando o poder único de abrir e interromper
as demandas dos mortos sobre os homens.


[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, págs 206-207. Originalmente em Rita de Cássia Amaral, pesquisa de campo, 1986, 1987. A pipoca, chamada no candomblé de “flor de Obaluaê”, é uma das comidas prediletas de Obaluaê, sendo também muito usada para fazer um tipo de festão com que se enfeita o barracão nas festas desse orixá.

Xirê – [siré]: brincar, no candomblé, ritual em que filhos e filhas-de-santo cantam e dançam numa roda para todos os orixás.

Equede – [èkejì]: literalmente, segunda (pessoa); na África, cargo sacerdotal do rei, que só estava abaixo do orixá daquela cidade, de quem se acreditava que o rei descendia diretamente; no Brasil, a iniciada no candomblé para cuidar dos orixás, vesti-los e dançar com eles.

Mariô – [màrìwò]: folha nova da palmeira de dendê.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

Ogum é castigado por incesto a viver nas estradas


Ogum vivia em casa de seus pais, Obatalá e Iemu.
Vivia com seus irmãos Eleguá e Oxóssi.
Ogum estava enamorado de Iemu
e muitas vezes tentou violá-la,
mas sempre fracassou.
Eleguá e Oxóssi protegiam a mãe das investidas de Ogum.
Um dia o próprio pai o surpreendeu no terrível intento.
Antes que Obatalá o castigasse, Ogum suplicou:
“Deixa, meu pai, que eu mesmo encontrarei o meu castigo”.
Foi então para um lugar distante
sem ter sequer a companhia de seus cães.
Ali viveu só para o trabalho,
impedido de qualquer felicidade.
Labutava em sua forja,
consumia-se em amarguras.

Somente seu irmão Oxóssi sabia de seu paradeiro.
Para purgar o triste destino,
Ogum se pôs a trabalhar sem nunca descansar.
Fabricava pós miraculosos e terríveis.
Seus pós espalharam-se pelo mundo
e muitos foram procurá-lo pelos seus feitiços.
Foi então que chegou a sua casa uma belíssima mulher.
Era Oxum, que o fez provar de seus encantos.
Que prisão poderia ser mais forte que o mel de Oxum?
Ele estava finalmente perdoado.

[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, págs 94-95. Originalmente encontrado em Natalia Aróstegui, 1994 (a), pp. 53-4.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

Exu leva dois amigos a uma luta de morte

 


Dois camponeses amigos puseram-se bem cedo
trabalhar em suas roças,
mas um e outro deixaram de louvar Exu.
Exu, que sempre lhes havia dado chuva e boas colheitas!
Exu ficou furioso.
Usanndo um boné pontudo,
de um lado branco e do outro vermelho,
Exu caminhou na divisa das roças,
tendo um à sua direita
e o outro à sua esquerda.
Passou entre os dois amigos
e os cumprimentou enfaticamente.
Os camponeses entreolharam-se. Quem era o desconhecido?
“Quem é o estrangeiro de barrete branco?”, perguntou um.
“Quem é o estrangeiro de barrete vermelhor?”, questionou o outro.
“O barrete era branco, branco”, frisou um.
“Não, o barrete era vermelho”, garantiu o outro.
Branco. Vermelho. Branco. Vermelho.
Para um, o desconhecido usava um boné branco,
para o outro, um boné vermelho.
Começaram a discutir sobre a cor do barrete.
Branco.
Vermelho.
Branco.
Vermelho.
Terminaram brigando a golpes de enxada,
mataram-se mutuamente.
Exu cantava e dançava.
Exu estava vingado.

[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, págs 48-49. Originalmente retirado de Noël Baudin, 1884, p. 53; Pierre Verger, 1954, p. 183; Verger, 1957, p. 112 [1999, pp. 124-5]; Deoscóredes Maximiliano dos santos, 1963, pp. 17-9, Ulli Beier, 1980, pp. 55-6; Verger, 1980, pp. 286-7; Verger, 1981 (a), p. 77; Verger, 1981 (b), pp. 11-2. Noutra versão, depois de muita luta, os dois são levados a julgamento pelo rei (Philip Neimark, 1993, pp. 74-5).

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

domingo, 31 de julho de 2011

Oxum mata o caçador e transforma-se num peixe


Oxum mora perto de lagoa, perto da ossá.
Todos os dias Oxum ia à lagoa se banhar;
todos os dias ia polir suas pulseiras, seus indés;
todos os dias lavava na lagoa seu ida.
Oxum caminhava junto às margens,
sobre as pedras cobertas pelas águas rasas da beira da lagoa.
E as pedras brutas alisavam os seus pés
e seus pés nas pedras ficavam mais formosos, tão macios.
Oxum ia à lagoa sempre esperando um amor,
que viria um dia, espreitando, apreciar sua beleza.
Oxum caminhava nua nas pedras.
Caminhava nua, esperando pelo homem
que viria um dia espiar sua exuberância.
Oxum ia à lagoa brunir os seus indés
e na lagoa lavava seu punhal, seu ida.
ia banhar seu corpo arredondado, lavar os seus cabelos,
lixar seus pés nas rochas ásperas da ossá.
Oxum ia desnuda, pensando num amor a conquistar.

Tanto foi Oxum à ossá
que as pedras se gastaram com seu caminhar.
Viraram seixos rolados pelo tempo,
modelados e alisados sob os pés do orixá.
Aí um dia aproximou-se da lagoa um belo caçador
e Oxum logo por ele se enamorou.
Dentro da lagoa Oxum dançou suas danças,
dançou para o jovem caçador danças de amor, de sedução.
E o caçador deixou-se atrair por tanto encanto.
O caçador perdidamente enamorou-se de Oxum.
Não via o rosto dela, encoberto pela cascata de contas
que escondia sua face do olhar dos curiosos,
mas podia antecipar sua formosura.
E chamou Oxum à terra, ao prazer do amor.
Quando Oxum saía da água para entregar-se ao caçador,
as contas que lhe cobriam o rosto voaram com o vento
e a face de Oxum se descobriu para ele.
Terrível surpresa!
Oxum, a que gastara com os pés as pedras
de tanto caminhar para o zelo da beleza,
transformando pedras brutas em lisíssimos otás,
a que não sentira passar o tempo que foi necessário
para pedras brutas transformarem-se em seixos rolados,
Oxum, sim, Oxum estava velha.
Muito velha. Muito feia.
Olhos desbotados e sem viço
na face gasta e enrugada pelo tempo.
Era uma mulher muito velha e muito feia.
A mais feia e velha de todas as mulheres;
o caçador nem podia acreditar.
Não era a mulher bela que o extasiara.
Não era a mais doce das belezas que quisera arrebatar.
Assustado e ofendido pelo espetáculo,
ferido pela decepção, temeroso da feia visão,
gritou o caçador:
"É a mulher-pássaro, a velha feiticeira!
É a terrível mulher-pássaro, Iá Mi Oxorongá!”.
O caçador havia confundido Oxum envelhecida
com uma das temidas feiticeiras, as Iá Mi Oxorongá.
E mais clamava o ainda assustado caçador:
“Preciso ir à aldeia avisar a todos.
Que é aqui que mora então a terrível velha-mãe.
Aquela cujo nome já é ruim pronunciar!”.

Oxum estava pasma. Surpresa. Enfurecida.
O ardil do tempo fora mais do que funesto.
O tempo se esgotara e Oxum não percebera,
todo o tempo apurando sua beleza.
Todo o tempo banhando seus cabelos,
polindo seu punhal, lavando seus indés.
Oxum não podia deixar a aldeia saber desse segredo.
Que Oxum envelhecera. Oxum Ijimi. Velha e feia.
Oxum não podia deixar-se ir o caçador.
Oxum matou o caçador com seu idá
e depois lançou-se atormentada ao lago.
E nas águas da ossá Oxum se transformou num peixe.
Mas a memória de sua beleza ficou inscrita
em cada um dos seixos polidos por seus pés.
A beleza de oxum
ficou para sempre nos otás.

Quando as águas estão altas na lagoa,
Oxum, o peixe, nada para as bordas da ossá
e ali junto aos seus otás
rememora vaidosa sua beleza.


[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi, publicado pela Cia das Letras, pág 327-9. Originalmente encontrado em Reginaldo Prandi, pesquisa de campo, São Paulo, 1997. Seixos colhidos nas margens dos rios são usados nos assentamentos de Oxum.

Ossá [osa] – lagoa, lago, mar.
Indé [idè] – metal amarelo, pulseira.
Idá [ida] – espada, punhal.
Otá [ota] – pedra; seixo usado para assentar (representar) o orixá.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

Orô é traído pela mulher e se afasta do mundo


Era uma vez um grande caçador,
que gostava de andar pelo mundo sem parar.
Seu nome era Orô
e era filho de Iemanjá.
Orô viajava, caçava
e conquistava seus amores.
Todas as mulheres tinham uma queda por Orô
e ele adorava estar em sua companhia.
Um dia Orô achou que era hora de assentar na vida.
Orô casou-se.
Era então o caçador pacato,
que esperava ansioso o nascimento do seu primogênito.
Mas sua mulher o traiu
e abortou seu filho.
Orô não a perdoou
e desde então odiou as mulheres.
Retirou-se para as matas que cercavam a cidade
e nunca mais mulher alguma o viu.
Quem de Orô se aproxima, de dia ou de noite,
pode escutar sua voz cavernosa e horripilante,
grave como o com dos berrantes.
Vive na mata como um egum,
como um egum perdido e solitário,
longe do mundo que tanto mal lhe fez.
É o senhor da floresta,
que guarda e assombra,
e todos o temem e o evitam.
Evitam até mesmo o pavoroso som de sua garganta,
especialmente as mulheres que ele odeia
e culpa por sua triste sina.
Vive na mata, onde aplica sua justiça,
devorando feiticeiros,
criminosos condenados
e mulheres adúlteras que os homens lhe entregam.
Só os homens dele se aproximam.
Nem as mulheres podem ver Orô,
nem Orô quer ver as mulheres.


[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi, publicado pela Cia das Letras, pág 186-7. Originalmente encontrado em Lydia Cabrera, 1980, pp. 41. Na África, o culto de Orô é conduzido pela sociedade secreta masculina dos Ogboni, responsável pela execução de criminosos ondenados à morte. Seus sacerdotes saem às ruas tocando instrumentos que produzem um som rouco como a voz de oro, obrigando as mulheres a se trancar em casa. Orô está praticamente esquecido no Brasil. É cultuado como egum em Cuba.

Egum [Égún] – antepassado, espírito de morto, o mesmo que egungum; alguns orixás são eguns divinizados.


Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

sábado, 30 de julho de 2011

Iemanjá joga búzios na ausência de Orunmilá


Iemanjá e Orunmilá eram casados.
Orunmilá era um grande adivinho.
Com seus dotes sabia interpretar os segredos dos búzios.
Certa vez Orunmilá viajou e demorou a voltar
e Iemanjá viu-se sem dinheiro em casa.
Então, usando o oráculo do marido ausente,
passou a atender uma grande clientela
e fez muito dinheiro.

No caminho de volta pra casa,
Orunmilá ficou sabendo que havia em sua aldeia
uma mulher de grande sabedoria e poder de cura,
que com a perfeição de um babalaô jogava búzios.
Ficou desconfiado.
Quando voltou, não se apresentou a Iemanjá,
preferindo vigiar, escondido, o movimento em sua casa.
Não demorou a constatar que era mesmo a sua mulher
a autora daqueles feitos.
Orunmilá repreendeu duramente Iemanjá.
Iemanjá disse que fez aquilo para não morrer de fome.
Mas o marido contrariado a levou perante Olofim-Olodumare.
Olofim reiterou que Orunmilá era e continuaria sendo
o único dono do jogo oracular que permite a leitura do destino.
Ele era o legítimo conhecedor pleno das histórias
que formam a ciência dos dezesseis odus.
Só o sábio Orunmilá pode ler a complexidade e as minúcias do destino.
Mas reconheceu que Iemanjá tinha um pendor para aquela arte,
pois em pouco tempo angariara grande freguesia.
Deu a ela então autoridade para interpretar as situações mais simples,
que não envolvessem o saber complexo dos dezesseis odus.


[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi, publicado pela Cia das Letras, págs. 387-8. Originalmente encontrado em Natália Aróstegui, 1994 (b), p. 45.

Odu [Odù] – Signos do oráculo iorubano, formados de mitos que dão indicações sobre a origem e o destino do consulente. O odu é obtido ao acaso, pelo lançamento de dezesseis búzios, dezesseis cocos de dendê, ou pela cadeia de adivinhação de Ifá. Na África, os odus são histórias em forma de poemas recitados de cor pelo babalaô. Em Cuba, os babalaôs mantêm os mitos dos odus escritos em cadernos que conservam em segredo (pataquis). No Brasil, os poemas estão esquecidos, conservando-se contudo seus nomes, nomes de orixás que fazem parte das narrativas e presságios de cada um deles. Odus são divindades enviadas por Orunmilá para ajudar os homens.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

domingo, 3 de julho de 2011

Iemanjá vinga seu filho e destrói a primeira humanidade


Iemanjá era uma rainha poderosa e sábia.
Tinha sete filhos
e o primogênito era o seu predileto.
Era um negro bonito e com o dom da palavra.
As mulheres caíam a seus pés.
Os homens e os deuses o invejavam.
Tanto fizeram e tanta calúnia levantaram contra o filho de Iemanjá
que provocaram a desconfiança de seu próprio pai.
Acusaram-no de haver planejado a morte do pai, o rei,
e pediram ao rei que o condenassem à morte.


Iemanjá Sabá explodiu em ira.
Tentou de todas as formas aliviar seu filho da sentença,
mas os homens não ouviram suas súplicas.
E essa primeira humanidade conheceu o preço de sua vingança.
Iemanjá disse que os homens
só habitariam a Terra enquanto ela quisesse.
Como eles a fizeram perder o filho amado,
suas águas salgadas invadiriam a terra.
E da água doce a humanidade não mais provaria.
Assim fez Iemanjá.
E a primeira humanidade foi destruída.


[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi, publicado pela Cia das Letras, pág 386. Originalmente encontrado em Lydia Cabrera, 1980, pp. 32-3.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

Oxum Navezuarina cega seus raptores



Um dia houve uma grande guerra entre as tribos.
Nessa guerra os soldados aprisionaram diversas moças.
Uma delas era uma virgem chamada Navezuarina.
Quando os jovens raptores levavam as moças aprisionadas,
Navezuarina invocou sua força mágica
e fez surgir um intensíssimo clarão.
O clarão cegou os guerreiros que levavam as prisioneiras.
Os soldados ficaram perambulando no mato, sem direção.
Como eles já nada enxergavam,
elas pensaram em fugir e voltar para sua aldeia.
Navezuarina, que é outro nome de Oxum,
pegou uma cuia e preparou uma poção com ervas.
Ela passou a mistura nos olhos dos guerreiros
e eles recobraram a visão.
Agradecidos, soltaram todas as prisioneiras.
Elas voltaram ao seu lar no país dos nagôs.
Navezuarina voltou para casa com as amigas,
voltou em companhia de Dantã e as outras.
Todas voltaram para sua aldeia,
onde são sacerdotisas da casa de Queviossô.
E elas andam juntas até hoje,
usando sempre roupas cor-de-rosa.
[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi, publicado pela Cia das Letras, pág 326. Originalmente encontrado em Sérgio Ferretti, pesquisa de campo, São Luís, 1997. Narrado por Pai Jorge Itaci, chefe do terreiro mina de Iemanjá. Navezuarina, ou Navê, Dantã e Queviossô são voduns cultuados no tambor-de-mina.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

Erinlé é chamado Ibualama


Havia um caçador chamado Erinlé,
o grande caçador de elefantes.
Um dia uma mulher passava perto de um rio
e ali perto, junto ao bosque, avistou o caçador.
Ele pediu a ela que lhe desse água para beber.
A mulher entrou no rio até a altura dos joelhos
e, quando se inclinou para apanhar água,
ouviu de Erinlé a ordem de que entrasse mais fundo.
Mais fundo no rio entrou a mulher,
mas, percebendo que o rio ia afogá-la,
saiu imediatamente da água, com medo de ser morta.
Ela ouviu então a voz do caçador, que era o próprio rio,
reclamando que ela não lhe trazia oferenda alguma.
Ela queria recolher sua água, mas nada lhe dava em troca.
Ninguém pode entrar no rio profundo sem trazer presentes.
Tempos depois, quando Erinlé foi cultuado como orixá,
seus seguidores o chamaram de Ibualama,
que quer dizer “Água Profunda”.

[Notas Bibliográficas e Comentários]


Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi, publicado pela Cia das Letras, págs 132-3. Originalmente encontrado em Pierre verger, 1957, p. 210 (1999, pp. 211-212).

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

terça-feira, 21 de junho de 2011

Ogum repudia Oiá por causa de Xangô


Ogum vivia com Oiá.
Um dia seu irmão Xangô foi visitá-lo
e, na casa de Ogum, Xangô deparou com sua bela mulher.
Voltou para casa atormentado pela beleza que vira.
Desejou Oiá ardentemente.
Não desistia da idéia de possuir a mulher do seu irmão.

Xangô voltou à casa de Ogum
dizendo-se doente, nem conseguia se alimentar.
Ogum acudiu-o e pediu-lhe que ensinasse a Oiá
o preparo do seu prato predileto, o amalá,
que sem dúvida saciaria sua fome e o curaria.
Oiá preparou o amalá conforme ensinado.
Antes de comê-lo,
Xangô pediu a Oiá que acrescentasse um pó,
advertindo-a contudo que não provasse da comida.
Xangô comeu com gula e saciou a fome.
A proibição deixou Oiá muito curiosa

No dia seguinte, Oiá fez novamente a comida,
mas desta vez não resistiu e provou dela.
Disse a Xangô não ter sentido nada especial.
Xangô entregou-lhe o pó para acrescentar.
O pó tinha o poder de botar labaredas pela boca.
Oiá pôs o pó no amalá e comeu dele.
Desde então Oiá tem o poder de botar fogo pela boca.
Ogum, ao ver sua mulher cuspindo fogo,
repudiou Oiá e a entregou a Xangô.
Xangô cinicamente recusou a oferta.
Ogum insistiu para que levasse Oiá dali.
Xangô tinha enganado Ogum.
Xangô levou Oiá para casa,
feliz com sua vitória.

[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, págs 93-94. Originalmente retirado de Monique Augras, 1983, pp. 142-3.

Amalá [àmala] – comida predileta de Xangô; no candomblé, comida à base de quiabo, camarão seco e azeite-de-dendê; no batuque, prato preparado com folhas de mostarda.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Eleguá guarda o portão de Aganju


Um dia Aganju, ao cruzar o rio, avistou uma linda mulher.
Ela se banhava nas águas, era Oxum.
Aganju fez a corte à linda mulher,
mas Oxum respondeu ao galanteio com desprezo.
Aborrecido, Aganju tentou violentá-la.
Em defesa de oxum surgiu das águas um ser pequenino.
Era Eleguá.
Oxum riu-se da situação
e explicou a Aganju que o pequeno a queria como a uma mãe,
por isso ele a defendia.
Todos ficaram amigos e Aganju os convidou à sua casa.
Oxum e Eleguá aceitaram o convite de Aganju
e foram até a casa dele.
Mas, ao chegar, Eleguá negou-se a entrar.
Ficou sentado à porte.
Ficou sendo o guardião da casa.
E por ser o guardião da entrada,
era sempre o primeiro a comer.

[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, pág 48. Originalmente retirado de Lydia Cabrera, 1980, p. 79. Eleguá (Elleguá) é o nome de Exu na santeria de Cuba. Muitas qualidades (caminhos) de Eleguá, no entanto, têm nomes de Exu (Echu). Em geral o nome Exu é reservado a aspectos malfazejos do orixá.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

domingo, 19 de junho de 2011

Oraniã nasce negro e branco e tem dois pais

Ogum venceu a guerra contra Ogotum.
Do espólio da guerra trouxe sete escravas.
Uma delas era Lacangê, mulher de rara beleza.
Ogum amou-a em segredo, escondendo-a para si.
Mas seus falsos amigos revelaram o segredo a seu pai Odudua.
O pai ordenou a Ogum que trouxesse a escrava à sua presença.
Encantado com ela, Odudua a fez sua esposa.

 

Nove meses depois, Lacangê teve um filho.
O menino deixou a todos espantados.
Do lado direito, tinha a pele negra, como a de Ogum;
do lado esquerdo, a mesma pele alva de Odudua.
Ogum e Odudua entreolharam-se, sem nada dizer.
Esse menino recebeu o nome de Oraniã.
Um dia foi um grande guerreiro,
fundou o reino de Oió e foi pai de Xangô.


[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, pág 432. Originalmente retirado de Ulli Beier, 1980, pp. 19-20; Pierre Verger, 1957, p. 143 [1999, pp. 340-1]; Verger, 1980, p. 288; Verger, 1981 (b), pp. 18-9; Verger, 1985, p. 28.


Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

sábado, 11 de junho de 2011

Oxum seduz Iansã

Uma vez Oxum passou pela casa de Iansã e a viu na porta.
Ela era linda, atraente, elegante.
Oxum então pensou: “Vou me deitar com ela”.
Oxum era muito decidida e muito independente.
Oxum resolveu roubar a coroa de Iansã.
E assim, muitas e muitas vezes, passou na frente daquela casa.
Levava uma quartinha de água na cabeça,
e ia cantando, dançando, provocando.
No começo Iansã não se deu conta do assédio,
mas depois acabou por se entregar.
Mas logo Oxum se dispôs a nova conquista
e Iansã a procurou para castigá-la.
Oxum teve de fugir para dentro do rio,
lá se escondeu e lá vive até hoje.


[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi, publicado pela Cia das Letras, págs 325-326. Originalmente encontrado em Rita Segato, 1995, p. 403.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!