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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Iá Mi são enganadas por Orunmilá


Um dia Orunmilá quis ir a Otá para descobrir os segredos das Iá Mi.
Ele procurou os babalaôs e consultou Ifá.
Orunmilá podia ir, disseram, mas tinha que fazer uma oferenda.
Assim, Orunmilá preparou uma peça de tecido branco para oferecer
e mais uma cabeça de serpente e um pombo branco,
ao que juntou quatro obis brancos e quatro obis vermelhos
e também azeite, pó branco de efum, pó vermelho de ossum
e uma cabaça.
Orunmilá deu tudo isso aos babalaôs e alegrou-se:
agora podia ir à cidade das Iá Mi.

Quando Orunmilá chegou ao mercado de Otá,
as feiticeiras se regozijaram: “A comida chegou”, disseram.
Porque elas queriam matar e comer Orunmilá.
Mas Exu, que faz o bem e o mal e transforma-se rapidamente,
veio em pessoa advertir as bruxas Iá Mi:
Orunmilá tinha um pássara mais poderoso do que os delas todas.
Dessa forma, as Iá Mi tiveram de levar seus pássaros
e submetê-los a Orunmilá.
Mas elas não queriam deixar de lutar.
As Iá Mi lançavam mau-olhado no corpo de Orunmilá.
Elas queriam matá-lo
porque Orunmilá conhecer todos os segredos delas.
Então Orunmilá consultou novamente Ifá e fez novas oferendas.
Preparou uma buchada, pegou um frango de penas arrepiadas
e também ecôs e búzios.
Os babalaôs de Orunmilá foram consultar Ifá.
Então eles chamaram as Iá Mi
e deram aquilo tudo para elas comerem.
E elas não puderam mais ver  Orunmilá nem pegá-lo.
Orunmilá as enganara.
Como eram ajés, isto é, feiticeiras,
as Iá Mi não podiam comer buchada,
pois tripa é seu euó, seu tabu,
e como frango arrepiado não pode voar para o telhado da casa,
as Iá Mi não podiam matá-lo.
Foi assim que Orunmilá enganou as Iá Mi Oxorongá naquele dia
e descobriu quase todos os segredos delas.


[Notas Bibliográficas e Comentários]
Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi, publicado pela Cia das Letras, págs. 351-352. Originalmente encontrado em Pierre Verger, 1992, pp. 41-3.


Ajé [Àjé] – feiticeira.
Euó [ewò] – interdição religiosa; tabu; quizila.
Ecô [eko] – bolinho de amido de milho branco ou amarelo embrulhado em folha de bananeira.
Efum [efun] – giz, pó branco.
Ossum [osun] – pó vermelho usado para pintar o corpo em certas cerimônias; giz.
Obi [obì] – noz-de-cola, fruto africano aclimatado no Brasil (Cola acuminata, Streculiacea), indispensável nos ritos do Candomblé; substituído em Cuba pelo coco.


Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

domingo, 31 de julho de 2011

Oxum mata o caçador e transforma-se num peixe


Oxum mora perto de lagoa, perto da ossá.
Todos os dias Oxum ia à lagoa se banhar;
todos os dias ia polir suas pulseiras, seus indés;
todos os dias lavava na lagoa seu ida.
Oxum caminhava junto às margens,
sobre as pedras cobertas pelas águas rasas da beira da lagoa.
E as pedras brutas alisavam os seus pés
e seus pés nas pedras ficavam mais formosos, tão macios.
Oxum ia à lagoa sempre esperando um amor,
que viria um dia, espreitando, apreciar sua beleza.
Oxum caminhava nua nas pedras.
Caminhava nua, esperando pelo homem
que viria um dia espiar sua exuberância.
Oxum ia à lagoa brunir os seus indés
e na lagoa lavava seu punhal, seu ida.
ia banhar seu corpo arredondado, lavar os seus cabelos,
lixar seus pés nas rochas ásperas da ossá.
Oxum ia desnuda, pensando num amor a conquistar.

Tanto foi Oxum à ossá
que as pedras se gastaram com seu caminhar.
Viraram seixos rolados pelo tempo,
modelados e alisados sob os pés do orixá.
Aí um dia aproximou-se da lagoa um belo caçador
e Oxum logo por ele se enamorou.
Dentro da lagoa Oxum dançou suas danças,
dançou para o jovem caçador danças de amor, de sedução.
E o caçador deixou-se atrair por tanto encanto.
O caçador perdidamente enamorou-se de Oxum.
Não via o rosto dela, encoberto pela cascata de contas
que escondia sua face do olhar dos curiosos,
mas podia antecipar sua formosura.
E chamou Oxum à terra, ao prazer do amor.
Quando Oxum saía da água para entregar-se ao caçador,
as contas que lhe cobriam o rosto voaram com o vento
e a face de Oxum se descobriu para ele.
Terrível surpresa!
Oxum, a que gastara com os pés as pedras
de tanto caminhar para o zelo da beleza,
transformando pedras brutas em lisíssimos otás,
a que não sentira passar o tempo que foi necessário
para pedras brutas transformarem-se em seixos rolados,
Oxum, sim, Oxum estava velha.
Muito velha. Muito feia.
Olhos desbotados e sem viço
na face gasta e enrugada pelo tempo.
Era uma mulher muito velha e muito feia.
A mais feia e velha de todas as mulheres;
o caçador nem podia acreditar.
Não era a mulher bela que o extasiara.
Não era a mais doce das belezas que quisera arrebatar.
Assustado e ofendido pelo espetáculo,
ferido pela decepção, temeroso da feia visão,
gritou o caçador:
"É a mulher-pássaro, a velha feiticeira!
É a terrível mulher-pássaro, Iá Mi Oxorongá!”.
O caçador havia confundido Oxum envelhecida
com uma das temidas feiticeiras, as Iá Mi Oxorongá.
E mais clamava o ainda assustado caçador:
“Preciso ir à aldeia avisar a todos.
Que é aqui que mora então a terrível velha-mãe.
Aquela cujo nome já é ruim pronunciar!”.

Oxum estava pasma. Surpresa. Enfurecida.
O ardil do tempo fora mais do que funesto.
O tempo se esgotara e Oxum não percebera,
todo o tempo apurando sua beleza.
Todo o tempo banhando seus cabelos,
polindo seu punhal, lavando seus indés.
Oxum não podia deixar a aldeia saber desse segredo.
Que Oxum envelhecera. Oxum Ijimi. Velha e feia.
Oxum não podia deixar-se ir o caçador.
Oxum matou o caçador com seu idá
e depois lançou-se atormentada ao lago.
E nas águas da ossá Oxum se transformou num peixe.
Mas a memória de sua beleza ficou inscrita
em cada um dos seixos polidos por seus pés.
A beleza de oxum
ficou para sempre nos otás.

Quando as águas estão altas na lagoa,
Oxum, o peixe, nada para as bordas da ossá
e ali junto aos seus otás
rememora vaidosa sua beleza.


[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi, publicado pela Cia das Letras, pág 327-9. Originalmente encontrado em Reginaldo Prandi, pesquisa de campo, São Paulo, 1997. Seixos colhidos nas margens dos rios são usados nos assentamentos de Oxum.

Ossá [osa] – lagoa, lago, mar.
Indé [idè] – metal amarelo, pulseira.
Idá [ida] – espada, punhal.
Otá [ota] – pedra; seixo usado para assentar (representar) o orixá.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Mães Feiticeiras - Iá Mi chegam ao mundo com seus pássaros maléficos


As Iá Mi Oxorongá são as nossas mães primeiras,
raízes primordiais da estirpe humana, são feiticeiras.
São velhas mães-feiticeiras as nossas mães ancestrais.
As Iá Mi são o princípio de tudo, do bem e do mal.
São vida e morte ao mesmo tempo, são feiticeiras.
São as temidas ajés, mulheres impiedosas.
As Oxorongá já viveram tudo o que se tem para viver.
As Iá Mi conhecem as fórmulas de manipulação da vida,
para o bem e para o mal, no começo e no fim.
Não se escapa ileso do ódio de Iá Mi Oxorongá.
O poder do seu feitiço é grande, é terrível.
Tão destruidor quanto é construtor e positivo o axé,
que é a força poderosa e benfazeja dos orixás,
única arma do homem na luta para fugir de Oxorongá.

Um dia as Iá Mi vieram para a Terra e foram morar nas árvores.
As Iá Mi fizeram sua primeira residência na árvore do orobô.
Se Iá Mi está na árvore do orobô e pensa em alguém,
este alguém terá felicidade, será justo e viverá muito na Terra.
As Iá Mi Oxorongá fizeram sua segunda morada
na copa da árvore chamada araticuna-da-areia.
Se Iá Mi está na copa da araticuna-da-areia e pensa em alguém,
tudo aquilo de que essa pessoa gosta será destruído.
As Iá Mi fizeram sua terceira casa nos galhos do baobá.
Se Iá Mi está no baobá e pensa em alguém,
tudo o que é do agrado dessa pessoa lhe será conferido.
As Iá Mi fizeram sua quarta parada
no pé de Iroco, a gameleira-branca.
Se Iá Mi está no pé de Iroco e pensa em alguém,
essa pessoa sofrerá acidentes e não terá como escapar.
As Iá Mi fizeram sua quinta residência nos galhos do pé de Apaocá.
Se Iá Mi está nos galhos do Apaocá e pensa em alguém,
rapidamente essa pessoa será morta.
As Iá Mi fizeram sua sexta residência na cajazeira.
Se Iá Mi está na cajazeira e pensa em alguém,
tudo o que ela quiser poderá fazer,
pode trazer a felicidade ou a infelicidade.
As Iá Mi fizeram sua sétima moradia na figueira.
Se Iá Mi está na figueira e alguém lhe suplica o perdão,
essa pessoa será perdoada pela Iá Mi.
Mas todas as coisas que as Iá Mi quiserem fazer,
se elas estiverem na copa da cajazeira,
elas o farão,
porque na cajazeira é onde as Iá Mi conseguem seu poder.
Lá é sua principal casa, onde adquirem seu grande poder.
Podem mesmo ir rapidamente ao Além, se quiserem,
quando estão nos galhos da cajazeira.
Porque é dessa árvore que vem o poder das Iá Mi
e não é qualquer pessoa
que pode manter-se em cima da cajazeira.
Elas vieram para a Terra.
Eram duzentas e uma e cada qual tinha o seu pássaro.
Eram as mulheres-pássaros, donas do eié,
eram as mulheres-eleié, as donas do eié.


Quando chegaram, foram direto para a cidade de Otá
e os babalaôs mandaram preparar uma cabaça para cada uma.
Elas escolheram sua ialodê, sua sacerdotisa.
Foi a ialodê quem deu a cada eleié
uma cabaça para guardar seu pássaro.
Então, cada Iá Mi partiu para sua casa
com seu pássaro fechado na cabaça
e lá cada uma guardou secretamente sua cabaça
até o momento de enviar o pássaro para alguma missão.
Quando Iá Mi abre a cabaça,
o pássaro vai, seja aonde for,
aos quatro cantos do mundo e executa sua missão.
Se é pra matar, ele mata.
Se é pra trazer os intestinos de alguém,
ele espreita a pessoa marcada para abrir seu ventre
e colher seus intestinos.
Se é para impedir uma gravidez,
ele retira o feto do ventre da mãe.
Ele faz o que lhe for ordenado e volta para sua cabaça.
Iá Mi, então, recoloca a cabaça em seu lugar secreto.
Mas, se a pessoa possui um encantamento contra a feiticeira,
ela deve dizer a seguinte fórmula:
“Que aquela que vos enviou para me pegar, não me pegue”.
Assim, por mais que tente, o pássaro não poderá executar sua tarefa.
Sua dona terá de ir em busca do auxílio das outras Iá Mi.
Ela vai à assembléia e relata seu problema.
As ajés, as feiticeiras, devem trabalhar com ela,
porque não podem realizar sua tarefa sozinhas.
Então, Iá Mi leva um pouco do sangue da pessoa que quer prejudicar.
Todas as outras Iá Mi o põem na boca e o bebem.
Depois, elas se separam e não deixam dormir a vítima.
O pássaro é capaz de carregar um chicote,
pegar um cacete,
tornar-se alma do outro mundo,
e até mesmo pode ter o aspecto de um orixá;
tudo para aterrorizar a pessoa à qual foi enviado.
Assim são as Iá Mi Oxorongá.
Esta é a sua história.


[Notas bibliográficas e comentários]

Transcrito do livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, págs 348-351. Originalmente retirado de Pierre Verger, 1992, pp. 38-40. As Iá Mi são feiticeiras, não são orixás. A inclusão de seus mitos neste volume justifica-se por sua importância na disputa entre o poder construtivo dos orixás, o axé, e o poder destrutivo delas. Ialodê, em algumas cidades e aldeias iorubanas, é quem organiza o trabalho comunitário das mulheres. No candomblé é um cargo feminino para o provimento do terreiro e organização de festas. O culto às Iá Mi no Brasil está restrito a alguns terreiros mais antigos, cantando-se para elas no rito do Padê, e a outros terreiros africanizados. O fato de que, no Brasil, a idéia de feitiço deixou de ter, junto ao povo-de-santo, as interdições morais existentes na África pode ter contribuído para o enfraquecimento do culto das temidas feiticeiras.

Axé [àse] – força mística dos orixás; força vital que transforma o mundo.
Orobô [orógbó] – noz-de-cola amarga, falso obi (Garcinia gnetoides, guttiferae), fruto usado no culto de Xangô.
Eié [eye] – pássaro.
Eleié [ele eye] – literalmente, o dono ou a dona do pássaro; epíteto usado para referir-se às Iá Mi.
Ialodê [iyálóde] – encarregada de organizar o trabalho comunitário das mulheres da aldeia.
Ajé [Àjé] – feiticeira.



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quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Oxóssi mata o pássaro das feiticeiras


Todos os anos, para comemorar a colheita dos inhames,
O rei de Ifé oferecia aos súditos uma grande festa.
Naquele ano, a cerimônia transcorria normalmente,
quando um passar de grandes asas pousou no telhado do palácio.
O pássaro era monstruoso e aterrador.
O povo, assustado, perguntava sobre sua origem.
A ave fora enviada pelas feiticeiras,
as Iá Mi Oxorongá, nossas mães feiticeiras,
ofendidas por não terem sido convidadas.
O pássaro ameaçava o desenrolar das comemorações,
o povo corria atemorizado.
E o rei chamou os melhores caçadores do reino para abater a grande ave.
De Idô, veio Oxotogum com suas vinte flechas.
De Morê, veio Oxotogi com suas quarenta flechas.
De Ilarê, veio Oxotadotá com suas cinqüentas flechas.
Prometeram ao rei acabar com o perverso bicho,
Ou perderiam suas próprias vidas.
Nada conseguiram, entretanto, os três odes.
Gastaram suas flechas e fracassaram.
Foram presos por ordem do rei.

Finalmente, de Irém, veio Oxotocanxoxô,
o caçador de uma só flecha.
Se fracassasse, seria executado
junto com os que o antecederam.
Temendo pela vida do filho,
a mãe do caçador foi ao babalaô
e ele recomendou à mãe desesperada
fazer um ebó que agradasse às feiticeiras.
A mãe de Oxotocanxoxô sacrificou então uma galinha.
Nesse momento, Oxotocanxoxô tomou seu ofá, seu arco,
apontou atentamente e disparou sua única flecha.
E matou a temível ave perniciosa.
O sacrifício havia sido aceito.
As Iá Mi Oxorongá estavam apaziguadas.
O caçador recebeu honrarias e metade das riquezas do reino.
Os caçadores presos foram libertados
e todos festejaram.
Todos cantaram em louvor a Oxotocanxoxô.
O caçador Oxô ficou muito popular.
Cantavam em sua honra, chamando-o de Oxóssi,
que na língua do lugar quer dizer “O Caçador Oxô é Popular”.
Desde então Oxóssi é o seu nome.

[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, págs 113 e 114. Originalmente encontrado e/ou transcrito de Pierre Verger, 1985, p. 289; Verger, 1981 (a), pp. 112-3. Verger, 1985, PP. 17-9; Verger, 1981 (b), PP. 25-35; Verger, 1981 (c), PP. 5 e segs.

Axé a todos os nossos irmãos!
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