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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Legba carrega uma panela que se transforma em sua cabeça


Ifá andava triste e desolado,
tendo se desentendido com seu rei.
Ele consultou o oráculo para saber o que fazer.
Foi dito que fizesse uma oferenda
com tudo quanto era fruto redondo.
Mas o ebó deveria ser entregue por sua mãe.
Como a mãe de Ifá morava longe,
Ifá pagou a Legba um galo e uns doces para ele ir buscá-la.
Exu chegou à casa da mãe de Ifá
e disse que a levaria à casa de seu filho
desde que ela lhe pagasse alguma coisa.
Mas ela não tinha nada para oferecer a ele.
Exu disse que queria o bode de doze chifres
que tinha visto no quintal da casa dela.
Ela disse que o bode não era dela,
ela apenas o guardava.
Legba insistiu.
Legba tomou o bode e o matou.
O sangue do bode jorrou e era puro fogo
e o fogo tomou conta de Exu.
Ele consultou o babalaô
e foi dito que fizesse uma oferenda
com os órgãos internos do bode.
Ele o fez e em seguida se pôs a cozinhar a cabeça.
Mas a cabeça do bode não cozinhava,
por mais que a panela ficasse no fogo.
Ele tomou a mãe de Ifá e a panela
e resolveu voltar à cidade de Ifá, levando a mulher.
Usando um pano torcido,
Legba fez uma rodilha para carregar a panela nos ombros
e a panela grudou nele e se transformou em sua cabeça.
Naquele tempo Exu ainda não tinha cabeça.
Eles chegaram à casa de Ifá e a mãe narrou ao filho o ocorrido.
Ifá lamentou-se por também não ter cabeça.
Foi dito que se fizessem sacrifícios com frutas redondas
para ganhar um ori.
A mãe levou ao rei a cabaça contendo as frutas redondas.
O rei tomou um mamão e o partiu em dois.
Uma metade do mamão fixou-se entre os ombros
e transformou-se na cabeça do rei.
Assim foram nascendo as cabeças.
Exu foi o primeiro a ter o ori fixado nos ombros.
Precisa fazer sacrifício
quem quiser ter uma cabeça.

[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, págs 49 - 51. Originalmente encontrado em Bernard Maupoil, 1943, pp. 53-5; Juana Elbein dos Santos, 1976, pp. 214-5. Para os iorubás, a cabeça, o ori, é uma dádiva que recebe sacrifício, tradição mantida nos candomblés através do bori, cerimônia de dar comida à cabeça.

Ebó [ebò]: sacrifício, oferenda, despacho.
Ori [orí]: cabeça; destino.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Exu leva dois amigos a uma luta de morte

 


Dois camponeses amigos puseram-se bem cedo
trabalhar em suas roças,
mas um e outro deixaram de louvar Exu.
Exu, que sempre lhes havia dado chuva e boas colheitas!
Exu ficou furioso.
Usanndo um boné pontudo,
de um lado branco e do outro vermelho,
Exu caminhou na divisa das roças,
tendo um à sua direita
e o outro à sua esquerda.
Passou entre os dois amigos
e os cumprimentou enfaticamente.
Os camponeses entreolharam-se. Quem era o desconhecido?
“Quem é o estrangeiro de barrete branco?”, perguntou um.
“Quem é o estrangeiro de barrete vermelhor?”, questionou o outro.
“O barrete era branco, branco”, frisou um.
“Não, o barrete era vermelho”, garantiu o outro.
Branco. Vermelho. Branco. Vermelho.
Para um, o desconhecido usava um boné branco,
para o outro, um boné vermelho.
Começaram a discutir sobre a cor do barrete.
Branco.
Vermelho.
Branco.
Vermelho.
Terminaram brigando a golpes de enxada,
mataram-se mutuamente.
Exu cantava e dançava.
Exu estava vingado.

[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, págs 48-49. Originalmente retirado de Noël Baudin, 1884, p. 53; Pierre Verger, 1954, p. 183; Verger, 1957, p. 112 [1999, pp. 124-5]; Deoscóredes Maximiliano dos santos, 1963, pp. 17-9, Ulli Beier, 1980, pp. 55-6; Verger, 1980, pp. 286-7; Verger, 1981 (a), p. 77; Verger, 1981 (b), pp. 11-2. Noutra versão, depois de muita luta, os dois são levados a julgamento pelo rei (Philip Neimark, 1993, pp. 74-5).

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Eleguá guarda o portão de Aganju


Um dia Aganju, ao cruzar o rio, avistou uma linda mulher.
Ela se banhava nas águas, era Oxum.
Aganju fez a corte à linda mulher,
mas Oxum respondeu ao galanteio com desprezo.
Aborrecido, Aganju tentou violentá-la.
Em defesa de oxum surgiu das águas um ser pequenino.
Era Eleguá.
Oxum riu-se da situação
e explicou a Aganju que o pequeno a queria como a uma mãe,
por isso ele a defendia.
Todos ficaram amigos e Aganju os convidou à sua casa.
Oxum e Eleguá aceitaram o convite de Aganju
e foram até a casa dele.
Mas, ao chegar, Eleguá negou-se a entrar.
Ficou sentado à porte.
Ficou sendo o guardião da casa.
E por ser o guardião da entrada,
era sempre o primeiro a comer.

[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, pág 48. Originalmente retirado de Lydia Cabrera, 1980, p. 79. Eleguá (Elleguá) é o nome de Exu na santeria de Cuba. Muitas qualidades (caminhos) de Eleguá, no entanto, têm nomes de Exu (Echu). Em geral o nome Exu é reservado a aspectos malfazejos do orixá.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

sábado, 28 de maio de 2011

Exu põe fogo na casa e vira rei

Um dia mandaram Exu preparar um ebó
para conseguir fazer fortuna bem depressa.
Exu, depois de ter feito o ebó,
foi pra cidade de Ijebu.
Em vez de se hospedar no palácio do chefe local,
como pedia a tradição,
Exu ficou na casa de um homem de importante posição oficial.
De madrugada, quando todos dormiam,
Exu levantou-se devagarinho e fingiu que ia urinar no quintal.
Lá fora, Exu pôs fogo nas palhas que cobriam a casa.
Enquanto o telhado pegava fogo,
Exu gritava como louco, se fazendo de inocente.
Gritava que estava perdendo grande fortuna no incêndio.
Fortuna que havia guardado dentro de uma talha
que entregara à guarda do dono da casa.
Para os muitos curiosos que chegavam atraídos pelo sinistro
e
le repetia sem cessar a sua história.

Rapidamente tudo se queimou,
da casa só sobrando cinzas.
E assim, com toda a confusão que houve,
até o chefe da aldeia correu para o local.
Exu continuava clamando por causa do dano do incêndio.
Como se tratava de um prejuízo a um estrangeiro,
o chefe local resolveu pagar o suposto valor que Exu perdera.
Mas não havia na aldeia dinheiro suficiente
e então, para compensá-lo das perdas,
o rei, em detrimento de si mesmo, proclamou Exu rei dali em diante.
Assim exu foi feito o dono de Ijebu
e todos tornaram-se seus súditos.

 


[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, pág 47. Originalmente retirado de Agenor Miranda Rocha, 1928, p.2 [1999, pp. 35-6]; Pierre Verger, 1957, p. 113 [1999, p.126]; Deoscóredes Maximiliano dos Santos, 1963, pp. 107-8; D. M. dos Santos, 1981; Willfried Freuser e Mariano Carneiro da Cunha, 1982, pp. 4-5; Júlio Braga, 1988, p. 175; Braga, 1989, p.17.


Ebó - Sacríficio, oferenda, despacho.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Exu come tudo e ganha o privilégio de comer primeiro




Exu era o filho caçula de Iemanjá e Orunmilá,
irmão de Ogum, Xangô e Oxóssi.
Exu comia de tudo
e sua fome era incontrolável.
Comeu todos os animais da aldeia em que vivia.
Comeu os de quatro pés e comeu os de pena.
Comeu os cereais, as frutas, os inhames, as pimentas.
Bebeu toda a cerveja, toda a aguardente, todo o vinho.
Ingeriu todo o axeite-de-dendê e todos os obis.
Quanto mais comia, mais fome Exu sentia.
Primeiro comeu tudo de que mais gostava,
depois começou a devorar as árvores,
os pastos, e já ameaçava engolir o mar.
Furioso, Orunmilá compreendeu que Exu não pararia
e acabaria por comer até mesmo o Céu.
Orunmilá pediu a Ogum
que detivesse o irmão a todo custo.
Para preservar a Terra e os seres humanos e os próprios orixás,
Ogum teve que matar o próprio irmão.

A morte, entretanto, não aplacou a fome de Exu.
Mesmo depois de morto
podia-se sentir sua presença devoradora,
sua fome sem tamanho.
Os pastos, os mares, os poucos animais que restavam,
todas as colheitas, até os peixes iam sendo consumidos.
Os homens não tinham mais o que comer
e todos os habitantes da aldeia adoeceram
e de fome, um a um, foram morrendo.
Um sacerdote da aldeia consultou o oráculo de Ifá
e alertou Orunmilá quanto ao maior dos riscos:
Exu, mesmo em espírito, estava pedindo sua atenção.
Era preciso aplacar a fome de Exu.
Exu queria comer.
Orunmilá obedeceu ao oráculo e ordenou:
"Doravante, para que Exu não provoque mais catástrofes,
sempre que fizerem oferendas aos orixás
deverão em primeiro lugar servir comida a ele".
Para haver paz e tranquilidade entre os homens,
é preciso dar de comer a Exu,
em primeiro lugar.

[Notas Bibliográficas e Comentários]
Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi, publicado pela Cia das Letras, págs 45-6. Originalmente encontrado em Rita de Cássia Amaral, pesquisa de campo, São Paulo, 1986. Em todas as cerimônias do candomblé, Exu é sempre o primeiro a receber homenagens e sacrifícios. Outros mitos também tratam dessa prerrogativa de Exu.

Obi [Obì] - Noz-de-cola, fruto africano aclimatado no Brasil (Cola acuminata, Streculicea), indispensável nos ritos de candomblé; substituído em Cuba pelo coco.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Nanã tem um filho com Oxalufã


Nanã era considerada grande justiceira.
Qualquer problema que ocorresse,
todos a procuravam para ser a juíza das causas.
Mas sua imparcialidade era duvidosa.
Os homens temiam a justiça de Nanã,
pois se dizia que Nanã só castigava os homens
e premiava as mulheres.
Nanã tinha um jardim com um quarto para os eguns,
que eram comandados por ela.
Se alguma mulher reclamava do marido,
Nanã mandava prendê-lo.
Batia na parede chamando os eguns.
Os eguns assustavam e puniam o marido.
Só depois Nanã o libertava.

Ogum foi reclamar a Ifá sobre o que ocorria.
Segundo Exu, conhecido como bisbilhoteiro,
Nanã queria dizimar os homens.
Os orixás reunidos resolveram dar um amor para Nanã,
para que ela se acalmasse
e os deixasse em paz.
Os orixás enviaram Oxalufã nessa missão.

Chegando à casa de Nanã,
Oxalufã foi servido com ricos alimentos.
Mas o velho pediu-lhe que fizesse um suco de igbins, de caracóis.
Oxalufã, muito sábio, fez Nanã beber com ele o suco.
Nanã bebeu do omi eró, a água que acalma.
Assim Nanã foi se acalmando.
Cada dia que passava Nanã se afeiçoava mais a Oxalufã.

Pouco a pouco Nanã foi cedendo aos pedidos de Oxalá.
Mas até então Nanã não havia mostrado a ele seu jardim.
Um dia uma mulher queixosa do marido procurou Nanã,
e ela, aconselhada por Oxalufã, quis ouvir ambos os cônjuges,
não só a mulher, mas também o seu marido.

Nanã tinha se acalmado.
Mostrou de vez todo o seu reino a Oxalufã.
Mostrou também como comandava os eguns.
Oxalá observou tudo.
Um dia, quando Nanã se ausentou de casa,
Oxalá vestiu-se de mulher e foi ter com os eguns.
Com a voz mansa como a da velha,
Oxalá ordenou os eguns que dali em diante
eles atenderiam aos pedidos do homem que vivia na casa dela.

Em sua volta Nanã foi surpreendida com a afirmação de Oxalá,
que ele também mandaria nos eguns.
Mesmo contrariada, Nanã acatou o dito,
pois estava enamorada do velho,
queria ter com ele um filho.
Mas Oxalá disse a Nanã
que não poderiam ter um filho,
pois ambos tinham o mesmo sangue.
Nanã estava inconformada
e não aceitou o interdito.
Nanã preparou uma comida contendo um pó mágico
e o pó fez com que Oxalá adormecesse.
Aproveitando-se do sono de Oxalufã,
Nanã deitou-se com ele e engravidou.
Quando acordou,
Oxalá ficou muito contrariado.
Não podia mais confiar em Nanã,
pois Nanã se aproveitara do sono de Oxalá.
E Oxalá teve que abandonar Nanã.
Abandonou Nanã e foi viver com Iemanjá.

[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi, publicado pela Cia das Letras, págs 198 - 200. Originalmente encontrado em Monique Augras, 1983, pp. 136-7.

Egum [Égún] - antepassado, espírito de morto, o mesmo que egungunm; alguns orixás são eguns divinizados.
Igbim [Ígbin] - caracol catassol; animal predileto de Oxalá.
Omi Eró [Omi èró] - literalmente, água que acalma; abô de folhas suaves; também "sangue" de caracol.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Exu ajuda Olofim na criação do mundo

Insipiração em Série está de volta! E, em mais uma segunda feira, recomeçamos com o Orixá Exu. Boa Leitura!


Bem no princípio, durante a criação do universo,
Olofim-Olodumare reuniu os sábios do Orum
para que o ajudassem no surgimento da vida
e no nascimento dos povos sobre a face da Terra.
Entretanto, cada um tinha uma idéia diferente para a criação
e todos encontravam algum inconveniente nas idéias dos outros,
nunca entrando em acordo.
Assim, surgiram muitos obstáculos e problemas
para executar a boa obra a que Olofim já acreditavam
que era impossível realizar tal tarefa,
Exu veio em auxílio de Olofim-Olodumare.
Exu disse a Olofim que para obter sucesso em tão grandiosa obra
era necessário sacrificar cento e um pombos como ebó.
Com o sangue dos pombos se purificariam 
as diversas anormalidades
que pertubam a vontade dos bons espíritos.
Ao Ouvi-lo, Olofim estremeceu,
porque a vida dos pombos está muito ligada
à sua própria vida.
Mesmo assim, pouco depois sentenciou:
"Assim seja, pelo bem de meus filhos".
E pela primeira vez se sacrificariam pombos.
Exu foi guiando Olofim por todos os lugares
onde se deveria verter o sangue dos pombos,
para que tudo fosse purificado
e para que seu desejo de criar o mundo
assim fosse cumprido.
Quando Olofim realizou tudo o que pretendia,
convocou Exu e lhe disse:
"Muito me ajudaste
e eu bendigo teus atos por toda a eternidade.
Sempre serás reconhecido, Exu,
serás louvado sempre
antes do começo de qualquer empreitada".

[Notas Bibliográficas e Comentários]
Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, págs 44 e 45. Originalmente encontrado em natalia Aróstegui, 1994 (a), pp. 53-4. Por Olofim, ou Olofi, designa-se em Cuba o Deus Supremo, no Brasil chamado mais frequentemente de Olorum e, na África, de Olodumare ou Olorum.
Ebó - Sacríficio, oferenda, despacho.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Exu respeita o tabu e é feito o decano dos orixás!


Exu era o mais jovem dos orixás.
Exu assim devia reverência a todos eles,
sendo sempre o último a ser cumprimentado.
Mas Exu almejava a senoridade,
desejando ser homenageado pelos mais velhos.
Pra conseguir seu intento,
Exu foi consultar o babalaô.
Foi dito a Exu que fizesse sacríficio.
Deveria oferecer
três ecodidés, que são as penas do papagaio vermelho,
três galos de crista gorda, mais quinze búzios
e azeite-de-dendê e mariô, a folha nova da palmeira.
Exu fez o ebó
e o advinho disse a ele para tomar um dos ecodidés
e usá-lo na cabeça, amarrado na testa.
E que assim não poderia por três meses
carregar na cabeça o que quer que fosse.
Olodumare disse então
que queria ver todos os orixás,
queria saber se eles estavam dando conta na Terra
das missões que Olodumare a eles atribuíra.
Oxu, a Lua, foi buscar os orixás.

Todos os orixás se prepararam para o grande momento,
a grande audiência com Olodumare.
Todos trataram de preparar suas oferendas,
fizeram suas trouxas, seus carregos,
para levar tudo para Olodumare.
E cada um foi com a trouxa de oferendas na cabeça.
Só Exu não levava nada,
porque estava usando o ecodidé
e com ecodidé não podia levar nenhuma carga no ori.
Sua cabeça estava descoberta,
não tinha gorro, nem coroa, nem chapéu, nem carga.
Oxu levou os orixás até Olodumare.
Quando chegaram ao Orum de Olodumare,
todos se prostaram.
Mas Olodumare não teve que perguntar nada a ninguém, 
pois tudo o que ele queria saber,
lia nas mentes dos orixás.
Disse ele:
"Aquele que usa o ecodidé
foi quem trouxe todos a mim.
Todos trouxeram oferendas
e ele não trouxe nada.
Ele respeitou o tabu
e não trouxe nada na cabeça.
Ele está certo.
Ele acatou o sinal de submissão.
Doravante será meu mensageiro,
pois respeitou o euó.
Tudo o que quiserem de mim,
que me seja mandado dizer por intermédio de Exu.
E então por isso, por sua missão,
que ele seja homenageado antes dos mais velhos.
porque ele é aquele que usou o ecodidé
e não levou o carrego na cabeça
em sinal de respeito e submissão".

Assim o mais novo dos orixás,
o que era saudado em último lugar,
passou a ser o primeiro a receber os cumprimentos.
O mais novo foi feito o mais velho.
Exu é o mais velho, é o decano dos orixás.


[Notas Bibliográficas e Comentários]
Transcrito do livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, Págs 42-44.  Originalmente transcrito de Juana Elbein dos Santos, 1976, pp. 176-8. Filhos de Exu são proibidos de levar qualquer coisa na cabeça. Quem usa o ecodidé no ritual da iniciação no candomblé também é interditado de carregar objetos na cabeça por um período de tempo.

Ecodidé - Pena vermelha de um papagaio africano, edidé, ou papagaio-da-costa.
Mariô - Folha nova da palmeira de dendê.
Ebó - Sacrífico, oferenda, despacho.
Ori - Divindade da cabeça de cada indíviduo; recebe oferendas no ritual do bori | cabeça; destino.
Euó - Interdição religiosa; tabu; quizila.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Exu ganha o poder sobre as encruzilhadas!


Exu não tinha riqueza, não tinha fazenda, não tinha rio,
não tinha profissão, nem artes, nem missão.
Exu vagabundeava pelo mundo sem paradeiro.
Então um dia, Exu passou a ir à casa de Oxalá.
Ia à casa de Oxalá todos os dias.
Na casa de Oxalá, Exu se distraía,
vendo o velho fabricar os seres humanos.
Muitos e muitos também vinham visitar Oxalá,
mas ali ficavam pouco,
quatro dias, oito dias, e nada aprendiam.
Traziam oferendas, viam o velho orixá,
apreciavam sua obra e partiam.
Exu ficou na casa de Oxalá dezesseis anos.
Exu prestava muita atenção na modelagem
e aprendeu como Oxalá fabricava
as mãos, os pés, a boca, os olhos, o pênis dos homens,
as mãos, os pés, a boca, os olhos, a vagina das mulheres.
Durante dezesseis anos ali ficou ajudando o velho Orixá.
Exu não perguntava.
Exu observava.
Exu prestava atenção.
Exu aprendeu tudo.

Um dia Oxalá disse a Exu para ir postar-se na encruzilhada
por onde passavam os que vinham à sua casa.
Para ficar ali e não deixar passar quem não trouxesse
uma oferenda a Oxalá.
Cada vez mais havia mais humanos para Oxalá fazer.
Oxalá não queria perder tempo
recolhendo os presentes que todos lhe ofereciam.
Oxalá não tinha tempo para as visitas.
Exu tinha aprendido tudo e agora podia ajudar Oxalá;
Exu coletava os ebós para Oxalá.
Exu fazia bem o seu trabalho
e Oxalá decidiu recompensá-lo.
Assim, quem viesse à casa de Oxalá
teria que pagar também alguma coisa a Exu.
Quem estivesse voltando da casa de Oxalá
també pagaria alguma coisa a Exu.
Exu mantinha-se sempre a postos
guardando a casa de Oxalá.
Armado de um ogó, poderoso porrete,
afastava os indesejáveis
e punia quem tentasse burlar sua vigilância.
Exu trabalhava demais e fez ali a sua casa,
ali na encruzilhada.
Ganhou uma rendosa profissão, ganhou seu lugar, sua casa.
Exu ficou rico e poderoso.
Ninguém pode mais passar pela encruzilhada
sem pagar alguma coisa a Exu.


[Notas bibliográficas e Comentários] 

Transcrito do livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, págs 40 e 41. Originalmente retirado de William Bascom, 1980, pp.101-2. Este mito, com muitas variantes colhidas em terreiros brasileiros, ensina uma das mais caras tradições do candomblé, segundo a qual o aprendizado iniciático deve ser lento e baseado na observação, de preferência sem que o iniciado faça perguntas. Quem pergunta muito não aprende. Também afirma a idéia de que o número 16 para os iorubás é a perfeição, a totalidade, número que se repete frequentemente em mitos e fórmulas rituais.

Ebó - Sacríficio, oferenda, despacho.
Ogó - Porrete usado por Exu, geralmente com formato fálico.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

terça-feira, 27 de julho de 2010

Série De Exu a Oxalá #1 - Exu


Exu é a contradição que todo ser humano ostenta sobre si mesmo. O bem e o mal harmoniozamente ponderados sobre a existência humana. Tendo primazia nas oferendas é o primeiro orixá a ser louvado. Divindade mensageira, é ele quem mantém a ligação entre o Orum e o Aiyê, estabelecendo a comunicação dentro e fora dos cultos além de mediar todas as demais atividades liturgicas candomblecistas.

Quando da chegada dos primeiros navios negreiros ao Brasil e do estabelecimento do culto aos orixás em solo da Terra de Vera Cruz, Exu foi logo associado ao mal, o lado diabólico da religião jesuíta por seu caráter ambivalente desprovido de pudores e isento de pecados. O lado escuso que deveria ser menosprezado para a glorificação do imaculado potencial divino presente em cada homem que se convertesse à Santa Madre Igreja.

Ledo engano.

Assim, ainda hoje temos a associação de Exu à figura católica do diabo em uma tentativa cada vez mais latente de endemonizar a divindade e desmerecer o caráter religioso do candomblé reduzindo seus seguidores a vilipendiados "macumbeiros desocupados".

De novo, ledo [ignorante] engano.

A etimologia da palavra Èsú em yorubá refere-se à sua condição de esfera (princípio e fim) o que reforça a característica de orixá do movimento. Também associado à fertilidade, Exu propõe mais discussões a seu respeito ao ser representado com um falo ereto - o que o torna ainda mais controverso e dito "indecente".

Guardião de casas, aldeias e roças de candomblé, exu mora nas encruzilhadas. Faz o que lhe pedem mediante o pagamento que exige e do qual não abre mão. É de temperamento altamente mutável passando de irascível, astucioso e impassível a brincalhão e provocador.

A cerimônia em que exu come, o padê, é momento de respeito e atenção. É ali que se satisfaz a divindade para que o culto não seja pertubado e as manifestações possam ocorrer. Como escreveu Pierre Verger "...nem completamente bom. Nem completamente mau...".

O dia de exu é a segunda feira, suas cores são o preto e o vermelho e sua saudação, Laroiê!

Particularmente tenho exu como um companheiro de estrada, alguém com quem divido meu caminho e minhas vivências. Nenhum outro me traria tamanha segurança como a que Exu é capaz de oferecer. Vejo Exu como a qualquer outro amigo. Sempre disposto, sempre predisposto, nunca indisposto. Agrade-o e aquilo que queres ele te dará.

Laroiê, Elegbara!

Laroiê, Exú.

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Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!