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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Xangô ordena que primeiro saúdem seu irmão mais velho


Dadá Baiani Ajacá era o irmão mais velho de Xangô.
De caráter pacífico, deixava para seu irmão Xangô
o poder de enfrentar as lutas e maledicências que o incomodavam.
Xangô defendia o irmão com gana furiosa.
Xangô dava grandes festas no palácio de Oió
e a elas todo o povo acorria.
Quando todos se prostavam no chão para saudar Xangô,
ele os impedia e os mandava saudarem primeiro seu irmão mais velho.
Até hoje, quando se louva Xangô, é por hábito saudar Dadá Baiani.
Assim Xangô sempre estará satisfeito.
E Dadá também é senhor de muitas riquezas
e propicia tudo isso a seus devotos.

[Notas Bibliográficas e Comentários]


Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi, publicado pela Cia das Letras, pág 249. Originalmente encontrado em Pierre Verger, 1985, p. 30.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

terça-feira, 21 de junho de 2011

Ogum repudia Oiá por causa de Xangô


Ogum vivia com Oiá.
Um dia seu irmão Xangô foi visitá-lo
e, na casa de Ogum, Xangô deparou com sua bela mulher.
Voltou para casa atormentado pela beleza que vira.
Desejou Oiá ardentemente.
Não desistia da idéia de possuir a mulher do seu irmão.

Xangô voltou à casa de Ogum
dizendo-se doente, nem conseguia se alimentar.
Ogum acudiu-o e pediu-lhe que ensinasse a Oiá
o preparo do seu prato predileto, o amalá,
que sem dúvida saciaria sua fome e o curaria.
Oiá preparou o amalá conforme ensinado.
Antes de comê-lo,
Xangô pediu a Oiá que acrescentasse um pó,
advertindo-a contudo que não provasse da comida.
Xangô comeu com gula e saciou a fome.
A proibição deixou Oiá muito curiosa

No dia seguinte, Oiá fez novamente a comida,
mas desta vez não resistiu e provou dela.
Disse a Xangô não ter sentido nada especial.
Xangô entregou-lhe o pó para acrescentar.
O pó tinha o poder de botar labaredas pela boca.
Oiá pôs o pó no amalá e comeu dele.
Desde então Oiá tem o poder de botar fogo pela boca.
Ogum, ao ver sua mulher cuspindo fogo,
repudiou Oiá e a entregou a Xangô.
Xangô cinicamente recusou a oferta.
Ogum insistiu para que levasse Oiá dali.
Xangô tinha enganado Ogum.
Xangô levou Oiá para casa,
feliz com sua vitória.

[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, págs 93-94. Originalmente retirado de Monique Augras, 1983, pp. 142-3.

Amalá [àmala] – comida predileta de Xangô; no candomblé, comida à base de quiabo, camarão seco e azeite-de-dendê; no batuque, prato preparado com folhas de mostarda.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

domingo, 19 de junho de 2011

Oraniã nasce negro e branco e tem dois pais

Ogum venceu a guerra contra Ogotum.
Do espólio da guerra trouxe sete escravas.
Uma delas era Lacangê, mulher de rara beleza.
Ogum amou-a em segredo, escondendo-a para si.
Mas seus falsos amigos revelaram o segredo a seu pai Odudua.
O pai ordenou a Ogum que trouxesse a escrava à sua presença.
Encantado com ela, Odudua a fez sua esposa.

 

Nove meses depois, Lacangê teve um filho.
O menino deixou a todos espantados.
Do lado direito, tinha a pele negra, como a de Ogum;
do lado esquerdo, a mesma pele alva de Odudua.
Ogum e Odudua entreolharam-se, sem nada dizer.
Esse menino recebeu o nome de Oraniã.
Um dia foi um grande guerreiro,
fundou o reino de Oió e foi pai de Xangô.


[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, pág 432. Originalmente retirado de Ulli Beier, 1980, pp. 19-20; Pierre Verger, 1957, p. 143 [1999, pp. 340-1]; Verger, 1980, p. 288; Verger, 1981 (b), pp. 18-9; Verger, 1985, p. 28.


Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Xangô rouba Iansã de Ogum

Xangô um dia cansou-se da monotonia da corte
e partiu e busca de novas aventuras.
Chegou a Irê, onde morava Ogum, nobre guerreiro, senhor da forja.
Ogum vivia com Iansã, senhora dos ventos e das tempestades.
Xangô apreciava ver o trabalho de Ogum na forja
e sempre arriscava olhar para a mulher,
driblando a vigilância do ferreiro.
Iansã por sua vez encantava-se com o porte a nobreza de Xangô.
Um dia, fugiram e chegaram a Oió.
Lá reinava o meio-irmão de Xangô, Dadá Ajacá.
Dadá deixou que Xangô o ajudasse no comando do reino.
Nas terras de Oió, Xangô fundou Cossô, seu reino próprio,
sendo chamado Obá Cossô, rei de Cossô.
Assim, o reino de Dadá expandiu-se por força de Xangô.
Um dia Xangô destronou seu irmão.
Tornou-se o senhor absoluto e o povo aclamava:
“Kabiyesi Xangô, Alafin Oió Alayeluwa!”.
“Viva sua majestade Xangô,
dono do palácio de Oió e Senhor da Terra.”
Xangô ergueu seu palácio com esplendor,
teve mulheres e muitos filhos.
Sempre acompanhado de Iansã.
Oxum foi a segunda mulher, seguida de Obá.

[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, págs 248-9. Originalmente retirado de Pierre Verger, 1985, p. 37-8.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

Iansã proíbe Xangô de comer carneiro perto dela


Um dia Xangô passeava a cavalo.
Avistou um palácio e disse:
“Eu vou pra lá”.
Quando chegou, quis saber do porteiro quem era o dono.
“É de Oiá”, respondeu o porteiro.
E Xangô disse: “Eu quero falar com ela”.
O porteiro respondeu que era impossível.
“Mas eu quero falar com ela”, insistiu Xangô.
Então o porteiro foi até Iansã
e contou que lá fora um cavaleiro, um rei, queria vê-la.
Iansã chamou Xangô para dentro,
mas, quando ele fez referência na frente dela,
Iansã imediatamente sentiu o cheiro de carneiro.
Então Xangô perguntou se ela queria ser sua esposa.
Iansã perguntou de que lugar ele vinha
e quis saber qual era a comida que ele comia.
“Curi agbô. Carneiro”, respondeu Xangô.
“Não, eu não quero me casar contigo
porque comes isso que eu detesto.”
Mas Iansã acabou por concordar com o casamento
desde que fosse mantida uma restrição:
toda vez que ele quisesse comer carneiro,
que ele voltasse para sua terra
e por lá ficasse por três meses, antes de regressar.
Xangô aceitou a proposta e eles se casaram.
Casaram-se mas não vivem juntos.
Essa é a razão por que Oxum é concubina de Xangô.


[Notas Bibliográficas e Comentários]


Transcrito do livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, págs 299-300. Originalmente retirado de Rita Segato, 1995, pp. 390-1.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Xangô é reconhecido como orixá da justiça




Xangô e seus homens lutavam com um inimigo implacável.
Os guerreiros de Xangô, capturados pelo inimigo,
eram mutilados e torturados até a morte, sem piedade ou compaixão.
As atrocidades já não tinham limites.
O inimigo mandava entregar a Xangô seus homens aos pedaços.
Xangô estava desesperado e enfurecido.
Xangô subiu no alto de uma pedreira perto do acampamento
e dali consultou Orunmilá sobre o que fazer.
Xangô pediu ajuda a Orunmilá.
Xangô estava irado e começou a bater nas pedras com o oxé,
bater com seu machado duplo.
O machado arrancava das pedras faíscas,
que acendiam no ar famintas línguas de fogo,
que devoravam os soldados inimigos.
A guerra perdida foi se transformando em vitória.

Xangô ganhou a guerra.
Os chefes inimigos que havaim ordenado
o massacre dos soldados de Xangô
foram dizimados por um raio que Xangô disparou no auge da fúria.
Mas os soldados inimigos que sobreviveram
foram poupados por Xangô.
A partir daí, o senso de justiça de Xangô
foi admirado e cantado por todos.
Através dos séculos,
os orixás e os homens têm recorrido a Xangô
para resolver todo tipo de pendência,
julgar as discordâncias e administrar justiça.


[Notas Bibliográficas e Comentários]
Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi, publicado pela Cia das Letras, pág 245. Originalmente encontrado em Rita de Cássia Amaral, pesquisa de campo, São Paulo, 1986.


Oxé [osé] - Machado duplo de Xangô.

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Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Exu come tudo e ganha o privilégio de comer primeiro




Exu era o filho caçula de Iemanjá e Orunmilá,
irmão de Ogum, Xangô e Oxóssi.
Exu comia de tudo
e sua fome era incontrolável.
Comeu todos os animais da aldeia em que vivia.
Comeu os de quatro pés e comeu os de pena.
Comeu os cereais, as frutas, os inhames, as pimentas.
Bebeu toda a cerveja, toda a aguardente, todo o vinho.
Ingeriu todo o axeite-de-dendê e todos os obis.
Quanto mais comia, mais fome Exu sentia.
Primeiro comeu tudo de que mais gostava,
depois começou a devorar as árvores,
os pastos, e já ameaçava engolir o mar.
Furioso, Orunmilá compreendeu que Exu não pararia
e acabaria por comer até mesmo o Céu.
Orunmilá pediu a Ogum
que detivesse o irmão a todo custo.
Para preservar a Terra e os seres humanos e os próprios orixás,
Ogum teve que matar o próprio irmão.

A morte, entretanto, não aplacou a fome de Exu.
Mesmo depois de morto
podia-se sentir sua presença devoradora,
sua fome sem tamanho.
Os pastos, os mares, os poucos animais que restavam,
todas as colheitas, até os peixes iam sendo consumidos.
Os homens não tinham mais o que comer
e todos os habitantes da aldeia adoeceram
e de fome, um a um, foram morrendo.
Um sacerdote da aldeia consultou o oráculo de Ifá
e alertou Orunmilá quanto ao maior dos riscos:
Exu, mesmo em espírito, estava pedindo sua atenção.
Era preciso aplacar a fome de Exu.
Exu queria comer.
Orunmilá obedeceu ao oráculo e ordenou:
"Doravante, para que Exu não provoque mais catástrofes,
sempre que fizerem oferendas aos orixás
deverão em primeiro lugar servir comida a ele".
Para haver paz e tranquilidade entre os homens,
é preciso dar de comer a Exu,
em primeiro lugar.

[Notas Bibliográficas e Comentários]
Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi, publicado pela Cia das Letras, págs 45-6. Originalmente encontrado em Rita de Cássia Amaral, pesquisa de campo, São Paulo, 1986. Em todas as cerimônias do candomblé, Exu é sempre o primeiro a receber homenagens e sacrifícios. Outros mitos também tratam dessa prerrogativa de Exu.

Obi [Obì] - Noz-de-cola, fruto africano aclimatado no Brasil (Cola acuminata, Streculicea), indispensável nos ritos de candomblé; substituído em Cuba pelo coco.

Axé a todos os nossos irmãos!
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Olorum Colofé!

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Iemanjá foge de Oquerê e corre para o mar


Iemanjá foi mãe de dez filhos,
fruto de seu casamento com Olofim-Odudua.
Cansada da vida em Ifé, Iemanjá partiu para o Oeste.
Iemanjá assim chegou a Abeocutá.
Lá conheceu Oquerê, rei de Xaci.
Conheceu Oque-rê, Oquê.
Oquê, encantado com a sua beleza, propôs-lhe casamento.
Ela concordou, desde que ele nunca fizesse alusão a seus seios,
seios que eram grandes, fartos, volumosos.
Porque Iemanjá havia amamentado muitos filhos.
Em troca, Iemanjá nunca falaria dos defeitos de Oquerê.
Não falaria de seus testículos exuberantes,
de sua mania de beber demais,
nem entraria em seus aposentos pessoais.
Esses eram os tabus de Iemanjá e Oquerê.

Um dia, Oquerê voltou para casa embriagado,
tropeçou em Iemanjá, vomitou no chão da sala.
Iemanjá o reprimiu, chamando-o de bêbado.
Chamou-o de imprestável.
Oquerê perdeu o domínio das palavras.
Ficou enfurecido.
Oquerê ofendeu Iemanjá,
fazendo comentários grosseiros sobre os imensos seios dela.
Iemanjá lembrou-o dos defeitos dele,
como ele bebia, como tinha exagerada a genitália.
Entrou no quarto dele e apontou a confusão que lá reinava.
Não havia mais reconciliação possível.
Todos os tabus estavam quebrados.
Oquê quis surrar Iemanjá
e ela fugiu.

Iemanjá saiu em fuga para a casa de sua mãe Olocum.
Iemanjá tinha um presente que ganhara dela,
uma garrafa com uma poção mágica, que levou consigo.
Na fuga, Iemanjá derrubou a garrafa e dela nasceu um rio,
que levaria Iemanjá ao mar, a casa de sua mãe.
Assim Iemanjá iniciou seu curso em direção ao mar.
Mas Oquerê, que a perseguia, tentou impedi-la de abandoná-lo.
Transformou-se ele próprio numa altíssima montanha,
que impedia o curso de Iemanjá em direção ao mar.
Oquerê transformou-se em Oquê, a montanha,
para impedir que Iemanjá, o rio, corresse para o mar.
Iemanjá chamou em seu auxílio Xangô, seu filho poderoso.
Xangô pediu oferendas e no dia seguinte provocou a chuva.
E quando a tempestade era forte, Xangô lançou um raio,
que num estrondo dividiu o monte Oquê em dois,
formando um vale profundo para a passagem de sua mãe, o rio.
Livre, Iemanjá seguiu para a casa da mãe dela, o mar.
Assim Iemanjá Ataramabá foi aconchegar-se no colo de Olocum.

[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, págs 383-5. Originalmente encontrado em William Bascom, 1980, pp. 45-6, 489-93; Pierre Verger, 1981 (a), p. 190; Verger, 1981 (b), pp. 59-63; Verger, 1985, pp. 50-2; Agenor Miranda Rocha, 1994, pp. 83-4. variantes deste mito dizem que Iemanjá teria entrado num quarto proibido do palácio de Oquerê, buscando comida para seus hóspedes, e que seu marido teria então ridicularizado os fartos seios da esposa. Iemanjá replicara fazendo alusão aos enormes dentes de Oquerê e, noutra variada, fazendo pouco de seus desproporcionais testículos. Mito mito parecido ao de Otim. Noutra versão, o marido é Ogum (Ulli Beier, 1980, pp. 45-6). Em muitos candomblés, a Iemanjá aqui descrita corresponde à qualidade Ataramabá.

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Olorum Colofé!

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Iansã ganha atributos de seus amantes


Iansã usava seus encantos e sedução para adquirir poder. 
Por isso entregou-se a vários homens, 
deles recebendo sempre algum presente. 
Com Ogum, casou-se e teve nove filhos, 
adquirindo o direito de usar a espada 
em sua defesa e dos demais. 
Com Oxaguiã, adquiriu o direito de usar o escudo, 
para proteger-se dos inimigos. 
Com Exu, adquiriu os direitos de usar o poder do fogo e da magia, 
para realizar os seus desejos e os de seus protegidos. 
Com Oxóssi, adquiriu o saber da caça, 
para suprir-se de carne e a seus filhos. 
Aprimorou os ensinamentos que ganhou de Exu 
e usou de sua magia para transformar-se em búfalo, 
quando ia em defesa de seus filhos. 
Com Logum Edé, adquiriu o direito de pescar 
e tirar dos rios e cachoeiras os frutos d’água 
para a sobrevivência sua e de seus filhos. 
Com Obaluaê, Iansã tentou insinuar-se, porém, em vão. 
Dele nada conseguiu. 
Ao final de suas conquistas e aquisições, 
Iansã partiu para o reino de xangõ, 
envolvendo-o, apaixonando-se e vivendo com ele para a vida toda. 
Com Xangõ, adquiriu o poder do encantamento, 
o posto da justiça e o domínio dos raios. 

[Notas Bibliográficas e Comentários]


Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, págs 296 e 297. Originalmente encontrado e/ou transcrito de Rita de Cássia Amaral, pesquisa de campo, São Paulo, 1986.
Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

Xangô é reconhecido por Aganju como seu filho legítimo


Aganju era pai de Xangô, 
mas não se conheciam. 
Aganju era tão temido e respeitado 
que deixava a porta de casa sempre aberta 
e ninguém jamais se atrevera a entrar. 
Aganju tinha a casa sempre abarrotada de frutas,
pois o rio, as terras e as grandes savanas lhe pertenciam. 
Um dia, Xangô entrou na casa de Aganju, 
comeu de tudo, se fartou 
e depois deitou para dormir na esteira de Aganju. 

Quando Aganju chegou, 
encontrou aquele negro atrevido 
descansando na maior tranqüilidade. 
Aganju fez uma fogueira e atirou Xangô ao fogo. 
Mas o fogo Xangô não queimava. 
Como iria se queimar se ele próprio era o fogo? 
Então, Aganju tomou Xangô em seus ombros 
e o levou até o mar para afogá-lo. 
Do mar saiu Iemanjá Conlá, a mãe de Xangô. 
Iemanjá intercedeu: 
“O que estás fazendo, Aganju? 
Não podes matar nosso filho”. 
Aganju olhou admirado para Xangô 
e se deu conta de como eram parecidos. 
O filho era tal qual o pai. E disse: 
“Eu, Aganju, sou o homem mais valente e bravo. 
Mais valente e bravo em todo o mundo. 
Tu, Xangô, és tão valente e bravo quanto eu. 
Estou certo de que és realmente filho meu”. 
E eles cantaram e dançaram em regozijo. 

[Notas Bibliográficas e Comentários] 

Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, págs 247 e 248. Originalmente encontrado e/ou transcrito de Samuel Feijoo, 1986, pp. 259-60; Natalia aróstegui, 1994 (a), p. 296. Em outra versão, a mãe de Xangô é Obatalá, que em Cuba pode ser masculino ou feminino: Harold Coulander, 1973, pp. 220-1.

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quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Xangô torna-se rei de Cossô!


Xangô era filho de Oraniã.
Em suas viagens, Oraniã passou por Empê, em território tapa.
Elempê, o rei, ofereceu-lhe a filha em casamento,
uma princesa de nome Iamassê.
Dessa união nasceu Xangô.
Xangô foi criado na terra de sua mãe.
Desde menino Xangô não escondia o temperamento forte
e já comandava um exército de brinquedo.
Fazia traquinagens e amedontrava os habitantes do lugar.

Crescido, Xangô partiu em busca de aventuras.
Levou consigo o seu oxé, o machado de duas lâminas,
e um saco de couro onde guardava seus segredos:
o poder de cuspir fogo e lançar as pedras de raio,
o poder de lançar edum ará.
Xangô visitou a cidade e o povo de Cossô,
mas em Cossô os habitantes não o quiseram como rei,
por causa de seu caráter intranquilo.
Magoado com a rejeição, Xangô usou de seus poderes
e castigou com crueldade o povo de Cossô.
Com trovões e pedras de raio Xangô atacou a cidade
e logo a população caiu a seus pés, rogando clemência:
"Kabiyesi Xangô, Kawô Kabiyesi Obá Kossô".
"Viva sua Majestade Xangô, Rei de Cossô".
A cidade se rendia e a coroa lhe oferecia.
Xangô foi feito rei e realizou grandes obras.
Por seu governo justo, nunca foi esquecido o grande Obá Kossô.
Todos os seus súditos o aclamavam:
"Kabiyesi Xangô, Kawô Kabiyesi Obá Kossô".

[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, Pág 246. Originalmente transcrito de Pierre Verger, 1981 (b), pp. 36-9. Verger, 1985, pp.33-5.

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quarta-feira, 28 de julho de 2010

Xangô é escolhido rei de Oió!


Antes de se tornar rei de Oió,
Xangô foi consultar o Oráculo.
O advinho lhe disse que fizesse um sacríficio.
Que oferecesse búzios, dois galos, duas galinhas e dois pombos.
Xangô Afonjá devia oferecer também a roupa que estava usando
e dar alguma coisa para seus parentes e amigos.

Ele assim o fez e todos se reuniram
para comer e beber do sacríficio.
Todos se fartaram e cantaram.
Então se perguntou:
"Quem escolheremos para ser o nosso rei?".
"Que tal o homem em cuja casa comemos e bebemos?",
alguém propôs.
"Quem, senão Afonjá?
Só pode ser Afonjá!",
aclamou a multidão em coro.
"Quem mais pode ser feito rei?"
"Só temos Afonjá!",
alguém propôs.
"Que seja Afonjá",
aclamou a multidão em coro.
E escolheram Afonjá e o fizeram rei de Oió.
E Xangô reinou em Oió.


[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, Pág 244. Originalmente retirado de William Bascom, 1980, pp. 737-9.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!