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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Iemanjá foge de Oquerê e corre para o mar


Iemanjá foi mãe de dez filhos,
fruto de seu casamento com Olofim-Odudua.
Cansada da vida em Ifé, Iemanjá partiu para o Oeste.
Iemanjá assim chegou a Abeocutá.
Lá conheceu Oquerê, rei de Xaci.
Conheceu Oque-rê, Oquê.
Oquê, encantado com a sua beleza, propôs-lhe casamento.
Ela concordou, desde que ele nunca fizesse alusão a seus seios,
seios que eram grandes, fartos, volumosos.
Porque Iemanjá havia amamentado muitos filhos.
Em troca, Iemanjá nunca falaria dos defeitos de Oquerê.
Não falaria de seus testículos exuberantes,
de sua mania de beber demais,
nem entraria em seus aposentos pessoais.
Esses eram os tabus de Iemanjá e Oquerê.

Um dia, Oquerê voltou para casa embriagado,
tropeçou em Iemanjá, vomitou no chão da sala.
Iemanjá o reprimiu, chamando-o de bêbado.
Chamou-o de imprestável.
Oquerê perdeu o domínio das palavras.
Ficou enfurecido.
Oquerê ofendeu Iemanjá,
fazendo comentários grosseiros sobre os imensos seios dela.
Iemanjá lembrou-o dos defeitos dele,
como ele bebia, como tinha exagerada a genitália.
Entrou no quarto dele e apontou a confusão que lá reinava.
Não havia mais reconciliação possível.
Todos os tabus estavam quebrados.
Oquê quis surrar Iemanjá
e ela fugiu.

Iemanjá saiu em fuga para a casa de sua mãe Olocum.
Iemanjá tinha um presente que ganhara dela,
uma garrafa com uma poção mágica, que levou consigo.
Na fuga, Iemanjá derrubou a garrafa e dela nasceu um rio,
que levaria Iemanjá ao mar, a casa de sua mãe.
Assim Iemanjá iniciou seu curso em direção ao mar.
Mas Oquerê, que a perseguia, tentou impedi-la de abandoná-lo.
Transformou-se ele próprio numa altíssima montanha,
que impedia o curso de Iemanjá em direção ao mar.
Oquerê transformou-se em Oquê, a montanha,
para impedir que Iemanjá, o rio, corresse para o mar.
Iemanjá chamou em seu auxílio Xangô, seu filho poderoso.
Xangô pediu oferendas e no dia seguinte provocou a chuva.
E quando a tempestade era forte, Xangô lançou um raio,
que num estrondo dividiu o monte Oquê em dois,
formando um vale profundo para a passagem de sua mãe, o rio.
Livre, Iemanjá seguiu para a casa da mãe dela, o mar.
Assim Iemanjá Ataramabá foi aconchegar-se no colo de Olocum.

[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, págs 383-5. Originalmente encontrado em William Bascom, 1980, pp. 45-6, 489-93; Pierre Verger, 1981 (a), p. 190; Verger, 1981 (b), pp. 59-63; Verger, 1985, pp. 50-2; Agenor Miranda Rocha, 1994, pp. 83-4. variantes deste mito dizem que Iemanjá teria entrado num quarto proibido do palácio de Oquerê, buscando comida para seus hóspedes, e que seu marido teria então ridicularizado os fartos seios da esposa. Iemanjá replicara fazendo alusão aos enormes dentes de Oquerê e, noutra variada, fazendo pouco de seus desproporcionais testículos. Mito mito parecido ao de Otim. Noutra versão, o marido é Ogum (Ulli Beier, 1980, pp. 45-6). Em muitos candomblés, a Iemanjá aqui descrita corresponde à qualidade Ataramabá.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

domingo, 8 de agosto de 2010

Obatalá cria o homem!


Num tempo em que o mundo era apenas a imaginação de Olodumare,
só existia o infinito firmamento e abaixo dele a imensidão do mar.
Olorum, o Senhor do Céu, e Olocum, a Dona dos Oceanos,
tinham a mesma idade e compartilhavam
os segredos do que já existia e ainda existiria.
Olorum e Olocum tiveram dois filhos: Orixalá, o primogênito, também chamado Obatalá,
e Odudua, o mais novo.

Olorum-Olodumare encarregou Obatalá,
o Senhor do Pano Branco, de criar o mundo.
Deu-lhe poderes para isso.
Obatalá foi consultar Orunmilá,
que lhe recomendou fazer oferendas para ter sucesso na missão.
Mas Obatalá não levou a sério as prescrições de Orunmilá,
pois acreditava somente em seus próprios poderes.
Odudua observava tudo atentamente
e naquele dia também consultou Orunmilá.
Orunmilá assegurou a Odudua
que, se ele oferecesse os sacrifícios prescritos,
seria o chefe do mundo que estava para ser criado.
A oferenda consistia em quatrocentas mil correntes,
uma galinha com pés de cinco dedos,
um pombo e um camaleão,
além de quatrocentos mil búzios.
Odudua fez as oferendas.

Chegado o dia da criação do mundo,
Obatalá se pôs a caminho até a fronteira do além,
onde Exu é o guardião.
Obatalá não fez as oferendas nesse lugar,
como estava prescrito.
Exu ficou muito magoado com a insolência
e usou seus poderes para se vingar de Oxalá.
Então uma grande sede começou a atormentar Obatalá.
Obatalá aproximou-se de uma palmeira
e tocou seu tronco com seu comprido bastão.
Da palmeira jorrou vinho em abundância
e Obatalá bebeu do vinho até embriagar-se.
Ficou completamente bêbado e adormeceu na estrada,
à sombra da palmeira de dendê.
Ninguém ousaria despertar Obatalá.

Odududa tudo acompanhava.
Quando certificou-se do sono de Oxalá,
Odudua apanhou o saco da criação
que fora dado a Obatalá por Olorum.
Odudua foi a Olodumare e lhe contou o ocorrido.
Olodumare viu o saco da criação em poder de Odudua
e confiou a ele a criação do mundo.
Com as quatrocentas mil correntes Odudua fez uma só
e por ela desceu até a superfície de Ocum, o mar.
Sobre as águas sem fim, abriu o saco da criação
e deixou cair um montículo de terra.
Soltou a galinha de cinco dedos
e ela voou sobre o montículo, pondo-se a ciscá-lo.
A galinha espalhou a terra na superfície da água.
Odudua exclamou na sua língua: "Ilè nfé!",
que é o mesmo que dizer "A Terra se expande!",
frase que depois deu nome à cidade de Ifé,
cidade que está exatamente no lugar onde Odudua fez o mundo.
Em seguida Odudua apanhou o camaleão
e fez com que ele caminhasse naquela superfície,
demonstrando assim a firmeza do lugar.
Obatalá continuava adormecido.
Odudua partiu para a Terra para ser seu dono.

Então, Obatalá despertou e tomou conhecimento do ocorrido.
Voltou a Olodumare contando sua história.
Olodumare disse:
"O mundo já está criado.
Perdeste uma grande oportunidade".
Para castigá-lo Olodumare proibiu Obatalá
de beber vinho-de-palma para sempre,
ele e todos os seus descendentes.
Mas a missão não estava ainda completa
e Olodumare deu outra dádiva a Obatalá:
a criação de todos os seres vivos que habitariam a Terra.
E assim Obatalá criou todos os seres vivos
e criou o homem e criou a mulher.
Obatalá modelou em barro os seres humanos
e o sopro de Olodumare os animou.
O mundo agora se completara.
E todos louvaram Obatalá.

[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, Págs. 503 - 507. Originalmente retirado de Leo Frobenius, 1949, pp.162-3; Juana Elbein dos Santos, 1976, pp.61-4, Ulli Beier, 1980, pp.7-8; Pierre Verger, 1980, p. 297; Verger, 1981 (a), pp. 252-3; Verger, 1985, pp. 83-7; Agenor Miranda Rocha, 1994, pp.60-3; Arno Vogel et alii, p. 174. Uma versão romanceada encontra-se em Adilson de Oxalá, 1998, pp. 13 e segs. Noutra versão, o primeiro lugar do mundo a ser criado foi a cidade de Ifé, considerada berço dos iorubás e centro do mundo (Frobenius, loc. cit.). Variantes cubanas dão a Obatalá como criador do mundo. Odudua às vezes é considerado o criador das cabeças, mas as fez com defeito, obrigando a nova intervenção de Obatalá (Samuel Feijoo, 1986, p.256; Natalia Aróstegui, 1990, p.79). No Brasil, Odudua está muito esquecido, lembrado num ou noutro raro terreiro, sendo em geral substituído por Ogum, conforme o mito "Ogum cria o mundo".

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Oquê surge do fundo do mar!



No princípio, Olocum reinava só no mundo.
Olofim fez o mundo de água e Olocum o governava.
No princípio, tudo era o mar, tudo era Olocum.
E Olofim andava entediado com a vastidão sem fim das águas.
Foi então que Oraniã, com a força que lhe dera Olofim,
fez surgir do fundo do oceano o primeiro monte de terra,
a primeira colina sobre as águas, a montanha Oquê.
Oquê, que quer dizer montanha na língua dos antigos,
surgiu das profundezas dos mares para o prazer de Olofim
e desde então, além das águas, passou a existir a terra de Oquê.
Assim nasceu Oquê, o orixá do monte,
e sobre o monte a vida do homem foi possível,
porque antes tudo estava submerso
e todo o poder era do mar, de Olocum.
Logo depois, tendo o homem já se espalhado na Terra,
Olofim-Olodumare reuniu os demais orixás em cima de Oquê
e indicou a cada um onde seria seu novo domínio nesse mundo novo.
Os orixás tornaram-se então muito poderosos,
mas muitos daqueles que vieram depois dos orixás
se esqueceram de Oquê.
Sem Oquê nenhum dos orixás teria podido fazer nada
e é por isso que sempre se deve fazer oferendas a ele.
O que aconteceria se Oquê voltasse para o fundo das águas
e deixasse Olocum dominando o mundo sozinha?


[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, Pág 91. Originalmente transcrito de Natalia Aróstegui, 1990, p.88. Oquê está esquecido no Brasil. No final do século XIX, entretanto, Nina Rodrigues refere-se a um monte em Salvador, no bairro de Plataforma, cultuado como Oquê (Nina Rodrigues, 1935, pp. 177-8).


Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

sábado, 31 de julho de 2010

Iemanjá ajuda Olodumare na criação do mundo!



Olodumare-Olofim vivia só no Infinito,
cercado apenas de fogo, chamas e vapores,
onde quase nem podia caminhar.
Cansado desse seu universo tenebroso,
cansado de não ter com quem falar,
cansado de não ter com quem brigar,
decidiu pôr fim àquela situação.
Libertou as suas forças e a violência
delas fez jorrar uma tormenta de águas.
As águas debateram-se com rochas que nasciam
e abriram no chão profundas e grandes cavidades.
A água encheu as fendas ocas,
fazendo-se os mares e oceanos,
em cujas profundezas Olocum foi habitar.
Do que sobrou da inundação se fez a terra.
Na superfície do mar, junto à terra,
ali tomou seu reino Iemanjá,
com suas algas e estrelas-do-mar,
peixes, corais, conhchas, madrepérolas.
Ali nasceu Iemanjá em prata e azul, coroada pelo arco-íris Oxumarê.
Olodumare e Iemanjá, a mãe dos orixás,
dominaram o fogo no mundo da Terra[e o entregaram ao poder de Aganju, o mestre dos vulcões,
por onde ainda respira o fogo aprisionado.
O fogo que se consumia na superfície do mundo eles apagaram
e com suas cinzas Orixá Ocô fertilizou os campos,
propiciando
o nascimento das ervas, frutos,
árovres, bosques, florestas,
que foram dados aos cuidados de Ossaim.
Nos lugares onde as cinzas foram escassas,
nasceram os pântanos e nos pântanos, a peste,
que foi doada pela mãe dos orixás ao filho Omulu.
Iemanjá encantou-se com a Terra
e a enfeitou com rios, cascatas e lagoas.
Assim surgiu Oxum, dana das águas doces.
Quando tudo estava feito
e cada natureza se encontrava na posse de um dos filhos de Iemanjá,
Obatalá, respondendo diretamente às ordens de Olorum,
criou o ser humano.
E o ser humano povoou a Terra.
E os orixás pelos humanos foram celebrados.

[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prando publicado pela Cia das Letras, Págs 380-381. Originalmente transcrito de de Natalia Aróstegui, 1994 (b), pp.8-10.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!