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quinta-feira, 2 de junho de 2011

Odé desrespeita proibição ritual e morre

 
Naquele dia a caça era proibida.
Ninguém podia trabalhar.
Era dia de ir à casa de Ifá levar as oferendas.
Mas Odé queria caçar,
como fazia todo dia.
Odé não se importou com o interdito.
Odé não foi consultar o advinho.
Odé tranquilamente foi caçar,
seguiu o caminho da floresta.
Oxum, sua esposa, cansada de ver o marido
quebrar os sagrados tabus,
abandonou a casa e o esposo.



Caminhando pela mata, Odé escutou um canto que dizia:
“Eu não sou passarinho para ser morta por ti...”.
Era o canto de uma serpente, era Oxumarê.
Odé não se importou com o canto
e atravessou a cobra com a lança,
partindo-a em vários pedaços.
Odé tomou o caminho de sua casa
e, no percurso, continuou escutando o mesmo canto:
“Eu não sou passarinho para ser morta por ti...”.

Ao chegar em casa, Odé foi para a cozinha,
preparou uma iguaria com o fruto de sua caça
e comeu a saborosa comida imediatamente.
Pela manhã Oxum retornou a casa
para ver como estava o marido caçador.
Para seu espanto, encontrou morto o seu Odé.
Odé estava morto, o corpo caído no chão.
Ao lado de Odé, Oxum viu um rastro de serpente
que se alongava até a entrada da floresta.
Desesperada, Oxum foi procurar Orunmilá.
E ofereceu muitos sacrifícios.
Orunmilá deixou Odé viver de novo.
Deu a Odé o cargo de protetor do caçadores.
E Odé foi transformado em orixá.

[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, págs 114-125. Originalmente retirado de Monique Augras, 19883, pp. 112-3. Odé, caçador em ioruba, é um nome genérico para vários orixás da caça, como Oxóssi, Erinlé, Logum Edé. No xangô, nome da religião dos orixxás em Pernambuco, e no batuque do Rio Grande do Sul usa-se Odé para referir-se a Oxóssi. No candomblé, o nome Odé aparece nas cantigas, rezas e nomes rituais, mas o nome pelo qual os devotos se referem ao orixá é Oxóssi.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Logum Edé devolve a visão a Erinlé


Logum Edé era um faceiro caçador.
Erinlé o conheceu e foram caçar juntos.
Eram filho e pai, mas um outro não sabia.
Logum Edé era muito sedutor
e Erinlé se apaixonou por ele.
Ambos caçavam mais que todo mundo;
eram os dois os maiores odés.
Logum Edé flechava todos os pássaros,
mas respeitava os pássaros das feiticeiras.
Com as Iá Mi Oxorongá tinha esse pacto
e delas guardava alguns segredos.
Levava a tiracolo o adô que ganhara das velhas bruxas,
um bornal repleto de fórmulas mágicas e mistérios.

Um dia Logum Edé se distraiu
e Erinlé matou o pássaro proibido.
As Iá Mi imediatamente se vingaram
e mandou um feitiço que cegou a ambos.
Logum Edé então abriu o adô que carregava
e retirou o mistério das Iá Mi.
Pôde com ele devolver a Erinlé
a luz do sol e o brilho das estrelas.
Cego, partiu Logum seguido por Erinlé
e acabaram chegando à lagoa
onde Oxum se banhava e lavava suas pulseiras.
Logum Edé aproximou a mãe do companheiro
e dentro d'água um amor antigo renasceu.
Dessa nova união de Erinlé e Oxum
nasceu um novo rio, o rio Inlé,
e nasceu um peixe que foi montado por Logum.
Nas águas de Inlé nadou o peixe
e levou Logum Edé para as profundezas.
Foi lá que Logum Edé conheceu Iemanjá,
que o adotou e lhe deu riquezas de seu reino.
Nas margens desse rio, ele vive, desde então, por certo tempo,
voltando a viver na mata no tempo seguinte.
Logum Edé, o caçador das matas,
ganhou assim os peixes de Iemanjá.

[Notas Bibliográficas e Comentários]
Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, págs 138 - 9. Originalmente encontrado e/ou transcrito de Reginaldo Prandi, pesquisa de campo, São Paulo, 1997.

Adô - Pequena cabaça para carregar pólvora, embornal dos orixás caçadores. Também nome da cabaça que ewá leva na mão quando dança e que em alguns candomblés é chamada de aracolê.
Odé - Caçador; nome genérico para os orixás da caça; denominação de Oxóssi na nação nagô do xangô pernambucano e no batuque gaúcho.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Iansã ganha atributos de seus amantes


Iansã usava seus encantos e sedução para adquirir poder. 
Por isso entregou-se a vários homens, 
deles recebendo sempre algum presente. 
Com Ogum, casou-se e teve nove filhos, 
adquirindo o direito de usar a espada 
em sua defesa e dos demais. 
Com Oxaguiã, adquiriu o direito de usar o escudo, 
para proteger-se dos inimigos. 
Com Exu, adquiriu os direitos de usar o poder do fogo e da magia, 
para realizar os seus desejos e os de seus protegidos. 
Com Oxóssi, adquiriu o saber da caça, 
para suprir-se de carne e a seus filhos. 
Aprimorou os ensinamentos que ganhou de Exu 
e usou de sua magia para transformar-se em búfalo, 
quando ia em defesa de seus filhos. 
Com Logum Edé, adquiriu o direito de pescar 
e tirar dos rios e cachoeiras os frutos d’água 
para a sobrevivência sua e de seus filhos. 
Com Obaluaê, Iansã tentou insinuar-se, porém, em vão. 
Dele nada conseguiu. 
Ao final de suas conquistas e aquisições, 
Iansã partiu para o reino de xangõ, 
envolvendo-o, apaixonando-se e vivendo com ele para a vida toda. 
Com Xangõ, adquiriu o poder do encantamento, 
o posto da justiça e o domínio dos raios. 

[Notas Bibliográficas e Comentários]


Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, págs 296 e 297. Originalmente encontrado e/ou transcrito de Rita de Cássia Amaral, pesquisa de campo, São Paulo, 1986.
Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

sábado, 7 de agosto de 2010

Logum Edé é salvo das águas!


Logum Edé era filho de Oxóssi com Oxum.
Era o príncipe do encanto e da magia.
Oxóssi e Oxum eram dois orixás muito vaidosos.
Orgulhosos, eles viviam às turras.
A vida do casal estava insuportável
e resolveram que era melhor se separar.
O filho ficaria metade do ano nas matas com Oxóssi
e a outra metade com Oxum no rio.
Com isso, Logum se tornou uma criança de personalidade dupla:
cresceu metade homem, metade mulher.
Oxum proibiu Logum Edé de brincar nas águas fundas,
pois os rios eram traiçoeiros para uma criança de sua idade.
Mas Logum era curioso e vaidoso como os pais.
Logum não obedecia à mãe.
Um dia Logum nadou rio adentro, para bem longe da margem.
Obá, dona do rio, para vingar-se de Oxum,
com quem mantinha antigas querelas,
começou a afogar Logum.
Oxum ficou desesperada
e pediu a Orunmilá que lhe salvasse o filho,
que a amparasse no seu desespero de mãe.
Orumilá, que sempre atendia à filha de Oxalá,
retirou o príncipe das águas traiçoeiras e o troxe salvo à terra.
Então deu-lhe a missão de proteger os pescadores
e a todos os que vivessem das águas doces.
Dizem que foi Oiá quem retirou Logun Edé da água
e terminou de criá-lo juntamente com Ogum.


[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, Págs 137-8. Originalmente transcrito de Rita de Cássia Amaral, pesquisa de campo, São Paulo, 1987. 

Axé a todos os nossos irmãos!
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quinta-feira, 29 de julho de 2010

Logum Edé nasce de Oxum e Erinlé!


Um dia Oxum Ipondá conheceu o caçador Erinlé
e por ele se apaixonou perdidamente.
Mas Erinlé não quis saber de Oxum.
Oxum não desistiu e procurou um babalaô.
Ele disse que Erinlé só se sentia atraído
pelas mulheres da floresta, nunca pelas do rio.
Oxum pagou o babalaô e arquitetou um plano:
embebeu seu corpo em mel e rolou pelo chão da mata.
Agora sim, disfarçada de mulher da mata,
procurou de novo o seu amor.
Erinlé se apaixonou por ela no momento em que a viu.


Um dia, esquecendo-se das palavras do advinho,
Ipondá convidou Erinlé para um banho no rio.
Mas as águas lavaram o mel de seu corpo
e as folhas do disfarce se desprenderam.
Erinlé percebeu imediatamente como tinha sido enganado
e abandonou Oxum para sempre.
Foi-se embora sem olhar para trás.


Oxum estava grávida; deu  à luz a Logum Edé.
Logum Edé é metade Oxum, a metade rio,
e é metade Erinlé, a metade mato.
Suas metades nunca podem se encontrar
e ele habita num tempo o rio
e noutro tempo habita o mato.
Com o ofá, arco e flecha que herdou do pai, ele caça.
No abebé, espelho que herdou da mãe, ele se mira.


[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, Págs 136-137. Originalmente retirado de Reginaldo Prandi, pesquisa de campo, São Paulo, 1989. Narrado por Pai Doda Aguéssi Braga, babalorixá do Ilê Axé Ossaim Darê, São Paulo. Mito bastante popular nos terreiros da Bahia e de São Paulo, onde Erinlé é substituído por Oxóssi. O mel de abelhas, usado por Oxum para se disfarçar e enganar o caçador, tornou-se tabu para Oxóssi, sendo substituído por mel de milho nas oferendas a ele dedicadas.

Axé a todos os nossos irmãos!
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