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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Yaônilé na Mídia #4 - Coluna Yaônilé

Para crescer é necessário ousar, investir, arriscar. E é em uma iniciativa vanguardista que damos mais um passo à frente. A partir de hoje, o Yaônilé é também coluna quinzenal do site Seligue.com sob a assinatura do nosso diretor, Danilo Aguiar.


A idéia da coluna comunga com o objetivo do blog só que será trabalhada a partir de  uma linguagem mais objetiva. O leitor do Seligue.com terá a oportunidade de conhecer o trabalho desenvolvido pelo Yaônilé bem como se inteirar da atual conjectura das manifestações afro-brasileiras em Sergipe e no Brasil e a nossa participação em seu processo construtivo e reformulatório. Falamos em reformular o contexto social em que estamos inseridos como objetivo primordial de qualquer ação, seja ela afirmativa ou teórica, que este grupo realize.


As publicações serão quinzenais e, durante essa fase de testes e adaptações, gostaríamos de contar com a sua opinião para que o nosso trabalho seja sempre pautado nas suas expectativas enquanto espectador.  O objetivo não é alcançá-las mas sempre superá-las. 

Agradecemos o convite dos queridos Ramon Menezes e Eduardo Gimenez reiterando que esta é uma tácita declaração de comprometimento moral para com a cultura africana e afro-brasileira, suas vertentes e também um mergulho no entendimento de nossa gênese, uma volta aos navios negreiros que embalaram os sonhos dos nossos antepassados.


Confiram a estréia da coluna!


Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

domingo, 10 de outubro de 2010

Eleições 2010 - Comentários [Dez] Interessados

Não que eu queira fazer apologia a algum candidato, coligação ou representação partidária. Não, não faz meu feitio. Muito menos usar este espaço para propaganda favorável ou contrária à ideologia "política-fictícia" que se vê país afora. Meu nome é Danilo Aguiar e assino este texto como uma crítica à falta de informação da candidata à presidência pelo Partido dos Trabalhadores, Dilma Rousseff. Trata-se de debate de fatos, não confronto.

Pra começar, assistam o vídeo:


A Dilma afirma que o "nosso país" nunca registrou um conflito religioso. Teoricamente, a candidata está certa. No entanto, a realidade prática da afirmação é bem mais contraditória quando não alarmante. O que dizer do conflito silencioso e velado que as outras religiões praticam em demérito do candomblé? Falo do candomblé especificamente por ser ela uma religião de coabitação das outras de matrizes africanas e afro-brasileiras e talvez, a que mais é vítima do preconceito e da intolerância religiosa. Afirmo isso baseado em fatos presenciados, além do conhecimento empírico arregimentado de experiências sofridas por irmãos da religião, casas de culto e, principalmente, pelo legado de dor e terror que a herança escravista dos nossos antepassados nos deixou.

Conflito, sim. Claro, óbvio, evidenciado em cada olhar de reprovação, de condenação, olhares de vilipêndio. Nosso conflito é fruto de um preconceito dissimulado, vivido cotidianamente por quem deseja apenas professar sua religião sem ser menosprezado por isso. Menosprezo que existe e, falando em pessoas não em números, não tem prazo de validade.

Dilma continua: ..."querer criar contradição religiosa onde não tem é querer criar um clima de divisão no país." Em que país a Dilma mora? Afirmar que pelas ruas, ladeiras e vielas deste tão rico e cultural país que é o Brasil, onde eu moro e conheço por relação visceral, não existe contradição religiosa é o mesmo que visitar uma Cuba capitalista. Isso não honra a nossa democracia? Pra quem experimentou os terrores da ditadura, a palavra acompanhada do sentimento democrático deveriam exercer um significado mais abrangente e mais condizente com a realidade. Democracia neste país se aplica a setores bastante reservados, inacessíveis à grande massa, diga-se de passagem, principalmente no tangente às questões afro-religiosas que ainda não tiveram o prazer de degustar tal manjar. Fome dele, sempre houve.

Que é dever do Estado fornecer meios para a livre expressão religiosa e de culto e blá, blá, blá, todos nós sabemos. Acontece que não passa de teoria. Fato! E o que falar do controle midiático exercido por grandes "impérios da fé" que fazem das igrejas palcos para shows  de TV baseados na massificação de idéias torpes construídas sob discursos preconceituosos e linguagem ofensiva - isso quando o texto chulo não recebe auxílio do visual grotesco e resulta em santa chutada, enfim...

O segundo turno das eleições é dia 31/10. Todos temos uma segunda chance. Não estou dizendo para não votar na Dilma, repito. Particularmente, acho que voto nela. Peço apenas que tenham consciência para saber cobrar uma re-artiluação do plano de governo incluindo nossas reais necessidades, conhecer o potencial de diálogo que o candidato dedica, fazer-se ouvido para valorizar o futuro que, a despeito de outros milhões de eleitores, também é meu. Eu sou brasileiro, tenho sangue negro, fé em Deus e nos Orixás e me orgulho de ter a meu favor a possibilidade de me comprometer com quem comigo se compromete.

E, a propósito: Dilma, o Brasil tem 510 anos.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

terça-feira, 27 de julho de 2010

Série De Exu a Oxalá #1 - Exu


Exu é a contradição que todo ser humano ostenta sobre si mesmo. O bem e o mal harmoniozamente ponderados sobre a existência humana. Tendo primazia nas oferendas é o primeiro orixá a ser louvado. Divindade mensageira, é ele quem mantém a ligação entre o Orum e o Aiyê, estabelecendo a comunicação dentro e fora dos cultos além de mediar todas as demais atividades liturgicas candomblecistas.

Quando da chegada dos primeiros navios negreiros ao Brasil e do estabelecimento do culto aos orixás em solo da Terra de Vera Cruz, Exu foi logo associado ao mal, o lado diabólico da religião jesuíta por seu caráter ambivalente desprovido de pudores e isento de pecados. O lado escuso que deveria ser menosprezado para a glorificação do imaculado potencial divino presente em cada homem que se convertesse à Santa Madre Igreja.

Ledo engano.

Assim, ainda hoje temos a associação de Exu à figura católica do diabo em uma tentativa cada vez mais latente de endemonizar a divindade e desmerecer o caráter religioso do candomblé reduzindo seus seguidores a vilipendiados "macumbeiros desocupados".

De novo, ledo [ignorante] engano.

A etimologia da palavra Èsú em yorubá refere-se à sua condição de esfera (princípio e fim) o que reforça a característica de orixá do movimento. Também associado à fertilidade, Exu propõe mais discussões a seu respeito ao ser representado com um falo ereto - o que o torna ainda mais controverso e dito "indecente".

Guardião de casas, aldeias e roças de candomblé, exu mora nas encruzilhadas. Faz o que lhe pedem mediante o pagamento que exige e do qual não abre mão. É de temperamento altamente mutável passando de irascível, astucioso e impassível a brincalhão e provocador.

A cerimônia em que exu come, o padê, é momento de respeito e atenção. É ali que se satisfaz a divindade para que o culto não seja pertubado e as manifestações possam ocorrer. Como escreveu Pierre Verger "...nem completamente bom. Nem completamente mau...".

O dia de exu é a segunda feira, suas cores são o preto e o vermelho e sua saudação, Laroiê!

Particularmente tenho exu como um companheiro de estrada, alguém com quem divido meu caminho e minhas vivências. Nenhum outro me traria tamanha segurança como a que Exu é capaz de oferecer. Vejo Exu como a qualquer outro amigo. Sempre disposto, sempre predisposto, nunca indisposto. Agrade-o e aquilo que queres ele te dará.

Laroiê, Elegbara!

Laroiê, Exú.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

Série: De Exu a Oxalá


O candomblé é uma das poucas religiões, se não a única, que não segue um livro doutrinador ou algo do gênero como a Bíblia, o Alcorão, ..., tendo seus preceitos repassados oralmente. Sendo assim muita coisa se perde, outras se agregam e na maioria das vezes não se chega a um senso comum.


Baseado nisso resolvi escrever uma série que aborde as características dos Orixás na qual eu possa expressar aquilo que vejo, leio, ouço e vivo, as minhas experiências com as divindades africanas. Não quero com isso que o que aqui for escrito seja tomado como verdade absoluta, apenas leia-se que esta é a minha opinião pessoal. Sugiro no entanto que os interessados em conhecer mais procurem as variadas literaturas específicas que existem sobre o assunto para aprofundarem seus conhecimentos.

Todos os direitos sobre os textos são reservados a mim, o autor.

Boa Leitura a todos!

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

domingo, 25 de julho de 2010

Dança Negra Contemporânea Brasileira

A formação da cultura brasileira é fruto da fusão das tradições de povos de diferentes origens étnicas, sendo que o modo de participação de cada um desses povos são elementos basilares e constitutivos da cultura brasileira sendo esta, portanto, resultado da miscigenação ocorrida entre indígenas, africanos e europeus.

Quando se pensa em cultura é necessário enfatizar que esta é o resultado de tradições orais e escritas, sedimentadas nas mais diferentes formas, transmitidas geração a geração formando uma teia de informações que não devem (nem podem) ser perdidas ou esquecidas. Nesse tear que é a construção da história de uma sociedade a cultura atua como cimento unindo pontos, dando forma, redimensionando o imaginário em prol da difusão de um senso coletivo comum - a cultura popular. Como lembra Chauí "a cultura popular pode ser a capacidade de apresentar idéias, situações, sentimentos, paixões e anseios universais que, por serem universais, o povo reconhece, identifica e compreende espontaneamente. Nesse entendimento, cultura é também o modo das pessoas conviverem, se relacionarem, se expressarem, trabalharem, brincarem, contarem estórias e dançarem".

A herança escravista e o fato do Brasil ter sido o último país ocidental a abolir o regime escravocrata - que aqui durou quase 400 anos - são fatores que fazem com que alguns estudiosos apontem-nas como causas para o não reconhecimento da cultura afro-brasileira como parte legitima, constitutiva e representativa da cultura brasileira. Sendo assim, é preciso repensarmos a cultura negra enquanto formadora da identidade da dança afro-brasileira. Ao contrário das outras danças, a dança de origem negra é altamente simbólica, carregada de signos, significados e significantes que, independentemente da dicotomia entre nações de candomblé, trazem em si uma poderosa representatividade perante as histórias, mitos e lendas das quais são oriundas.Isso acaba fazendo com que a dança afro seja vista como exótica, folclórica ou mesmo sensual quando, na verdade, beira mares bem diferentes destes lagos.

Prefiro referir-me a partir de agora à "dança afro" como Dança Negra Contemporânea Brasileira. Explico.

O termo Dança Negra Contemporânea traz em si mais objetividade ao referir-se ao legado cultural e civilizatório da África Negra, de onde é oriundo. As coreografias do Yaônilé mais que puramente elementos simbólicos carregam o ar da dramaturgia que é um dos príncipios éticos-estéticos da cultura negra africana. De acordo com o escritor e pesquidador Cunha apud Silva e Calaça, "a arte africana transmite idéias, conceitos, valores grupais. Assim o artista deve sugerir e não representar; deve revelar a essência presente que está atrás daquelas formas criadas. Desta forma, o significado da arte africana é referência para análise conceitual e proposição coreográfica e dramatúrgica para a dança". Sob essa ótica, a religiosidade latente, o sagrado, o mistério, a simbologia e tantos outros referenciais culturais dos povos africanos constituem uma arte singular que redmensiona, transmite, sugere e comunica, "através da criação de formas e conteúdo estético, belo e expressivo também presentes nas danças".

"A dança africana remete à ancestralidade. A presença de elementos simbólicos, do mito, do rito é muito forte nestas comunidades e estão sempre presentes nas manifestações culturais dos povos africanos". De acordo com Asante apud Martins "existem sete princípios básicos presentes na dança africana, são eles: polirritmia, forma cíclica e circular, policentrismo, dimensionalidade, imitação e harmonia, sentido holístico, repetição".

O Yaônilé enquanto Cia de Dança Negra Contemporânea tem se engajado para tornar-se um centro de referências da cultura negra e afro-brasileira, desenvolvendo ações afirmativas que ajudem o nosso povo a melhor compreender a si mesmo, sendo um espaço de conhecimento, assimilação, aprofundamento e recriação das inúmeras manifestações artísticas negras do país.

E é sobre esse assunto que estarei participando de uma mesa redonda nos dias 13, 14 e 15 de Agosto com abertura do Yaônilé.

Aguardem a programação aqui no Blog.

Danilo Aguiar


Axé a todos os nossos irmãos!
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quarta-feira, 14 de julho de 2010

A dança sagrada



Trabalhar com a dança dos Orixás é uma grande responsabilidade por dois motivos: a representação de uma força que existe, se movimenta e se manifesta e, alheio a isso, a possibilidade de errar e desrespeitar a entidade.

O que se vê hoje em dia é uma banalização das danças sagradas transformando-as em atos banais, espetáculos de desonra a séculos de tradições das roças e abaças de candomblé. 

O Yaônilé, como um grupo cultural, não esquece de acercar-se de pessoas que conhecem a fundo a religião para acompanhar o trabalho realizado, corrigindo os erros, admoestando, ratificando os acertos.

Entendemos que trabalhar com uma cultura religiosa é refinar o plausível dos cultos, humanizando divindades para transcender à própria manifestação. Ignorar tais procedimentos, criando coreografias que não são fiéis às danças sagradas apenas para "fazer bonito" é descredibilizar a própria religião e que não se use a desculpa do não saber. Para fazer é necessário conhecer e conhecimento requer tempo e pesquisa. O homem que se isenta de suas responsabilidades se torna mais rude e grosseiro, além de negligente com a sua própria história.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
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sexta-feira, 26 de março de 2010

Entre a cruz e a encruzilhada


Para que os negros pudessem exercer sua fé e reverenciar seus ancestrais na terra de Vera Cruz foi necessário que fizessem uma camuflagem de seus rituais sob o olhar católico de seus senhores. Era inevitável: ser um brasileiro vivo dependia do credo na Santa Madre Igreja, o catolicismo era a única região tolerada por aqui e a única forma de ser legitimado socialmente. Como a nação Brasillis era constituída também por índios, a esfera dos cultos recebeu um reforço das pajelanças tupis guaranis sendo incorporadas louvações a espíritos indígenas dentro da miscelânea.

Assim surgiu o sincretismo religioso, o paralelismo entre o catolicismo branco, a tradição dos orixás da vertente negra e símbolos e os espíritos de inspiração indígena, contemplando as três fontes básicas do Brasil mestiço, seguindo o calendário festivo da Igreja Católica, santificando os ritos e sacramentos católicos. Mesmo após o século XIX, quando os negros se viram livres, continuaram a afirmar-se católicos (medo, retaliação?) o que acabou fazendo com que o candomblé da Bahia, o Xangô de Pernambuco, o Tambor-de-mina do Maranhão, o Batuque do Rio Grande do Sul e outras denominações, fossem arroladas pelo censo do IBGE sob o nome único e mais conhecido: candomblé.

terça-feira, 16 de março de 2010

Novidades.

O Espetáculo "Gira - O Movimento da Aruanda" conta agora com dois novos movimentos, acrescentados mediante a necessidade de apresentarmos duas novas forças da natureza. Danilo Aguiar, diretor do grupo e criador do espetáculo, esclarece que o Panteão Africano é muito mais vasto que possamos imaginar ou do que narram as estórias e lendas. No entanto, as divindades "importadas" para o continente americano se limitam a apenas uma parte desse todo sendo imprescindível um conhecimento maior das nações de candomblé que povoaram o Brasil e as ligações entre orixás, voduns e inquices no momento da criação de uma coreografia e de um movimento.
Aguardem as estréias.

Axé a todos os nossos irmãos.
Deus é tudo acima de todas as coisas.
Olorum Colofé!