segunda-feira, 11 de julho de 2011

Yaônilé em Imagens # 9 - por Marco Vieira


Confiram abaixo um slide com as imagens feitas pelo fotógrafo Marco Vieira da participação do Yaônilé na 28ª Lavagem da Conceição. As fotos estão disponíveis em nosso Flickr para download. ;)


Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

Os deuses e suas cidades - de onde vem os Orixás?

Créditos da Imagem
O culto a orixá na África não é homogêneo, não há um panteão definido em toda a parte negra do continente. Alguns deuses conhecidos em certas cidades são completamente desconhecidos em outras e seu culto, na maioria das vezes, fica restrito às cidades de que foram reis ou senhores. Essa é uma diferença com o Candomblé, no qual há um panteão mais ou menos homogêneo, e deuses das mais diversas procedências da terra ioruba são reverenciados num único culto.

Contudo, existem alguns orixás que são conhecidos em muitas regiões. É o caso de Exu, que não possui uma região definida e é quase como um deus universal, cultuado em Ifé e em Mahi. A única referência que se tem de um possível lugar dominado por Exu é o título de Alakétu com o qual, a exemplo de Oxóssi, também é saudado, mas esse atributo parece ter muito mais a ver com uma recriação brasileira, onde Kêtu tornou-se a mais importante nação de Candomblé, do que com um título honorífico recebido na África. Na verdade, o lugar de origem de Exu é cada ser humano, por isso é saudade Elebara, o rei do corpo.

A cidade de Iré teve como grande rei Ogum, que devido ao seu gosto pela conquista tornou-se conhecido em muitas cidades da África, inclusive Ifé, da qual foi regente quando seu pai, Odudua, esteve impossibilitado. O título de Onirê (Oníìré) pertence a Ogum. Nas regiões em que esse orixá não é cultuado, outros deuses assumem o domínio sobre a caça ou sobre a guerra, como Oxóssi em Kêtu, o grande orixá dos caçadores que está praticamente esquecido na África, mas é bastante cultuado no Brasil, onde mantém o título de Alakétu, tendo se tornado o grande patrono do Candomblé. Outros deuses caçadores, que no Brasil são considerados qualidades de Oxóssi, são cultuados em suas próprias cidades. Esse é o caso de Erinlé na cidade de Ilobu e Otin em Inisá. Logun Edé, saudado na África como rei de ILesá, no Brasil é filho de Oxum e Oxóssi.

Créditos da Imagem
Entre as deusas das águas muitas estão relacionadas também a rios que levam seus nomes. Iansã é a deusa do rio Níger, também conhecido como rio Oyá, que é um outro nome da deusa. Obá também é a divindade de um rio de mesmo nome, que em certo ponto encontra com o rio Oxum, formando uma violenta confluência e lembrando sempre a rivalidade entre as duas deusas. Oxum é também a rainha de Ijesá e seu culto se estende até a cidade de Osogbó, na qual selou uma aliança com o rei local, passando a ser cultuada por todos os moradores. Em Osogbó realizam-se os principais festivais de Oxum.

Iemanjá, a deusa do rio de mesmo nome e também do rio Ogum, era cultuada inicialmente em Abeokutá, mas quando seus sacerdotes tiveram que se mudar para Egbá, esta cidade passou a ser o principal local de culto. Ewá também tem um rio com seu nome e a sua cidade é Egbado.

Os iorubas, quando conquistavam territórios vizinhos, geralmente assimilavam os seus deuses, e foi isso que aconteceu com Nanã Buruku, Obaluaiê (Obalúayé), Oxumaré e Iroko, todos cultuados entre os Mahi e nas terras do antigo Daomé. Sua incorporação ao panteão nagô ocorreu ainda na África.

A região de origem de xangô é Nupé ou Tapá, mas seu culto é mais evidente e forte na cidade de Òyó, da qual foi o terceiro e mais poderoso Aláàfin (rei). Seu culto é muito intenso nessa cidade e praticamente desconhecido em Ifé, onde Oramfé é considerado o senhor do trovão.

Os orixás funfun são adorados em praticamente toda a África negra, porém, alguns nomes se sobressaem em determinadas regiões, como Orixalá ou Obatalá em Ifé; Oxalufã em Ifon e Oxaguiã em Ejigbó.

É importante compreender essa diferença fundamental entre África e Brasil, já que entre os iorubás o orixá está intimamente ligado à etnia. É por isso que devemos ter bem claro que somos afro-brasileiros, não podendo desconsiderar a história do negro no Brasil para compreender a formação do Candomblé.

[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do Livro “Candomblé – A panela do segredo”, de Pai Cido de Òsun Eyin com a colaboração de Rodnei William Eugênio, publicado pela Editora ARX, pp. 59-60.

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Olorum Colofé!

domingo, 3 de julho de 2011

Iemanjá vinga seu filho e destrói a primeira humanidade


Iemanjá era uma rainha poderosa e sábia.
Tinha sete filhos
e o primogênito era o seu predileto.
Era um negro bonito e com o dom da palavra.
As mulheres caíam a seus pés.
Os homens e os deuses o invejavam.
Tanto fizeram e tanta calúnia levantaram contra o filho de Iemanjá
que provocaram a desconfiança de seu próprio pai.
Acusaram-no de haver planejado a morte do pai, o rei,
e pediram ao rei que o condenassem à morte.


Iemanjá Sabá explodiu em ira.
Tentou de todas as formas aliviar seu filho da sentença,
mas os homens não ouviram suas súplicas.
E essa primeira humanidade conheceu o preço de sua vingança.
Iemanjá disse que os homens
só habitariam a Terra enquanto ela quisesse.
Como eles a fizeram perder o filho amado,
suas águas salgadas invadiriam a terra.
E da água doce a humanidade não mais provaria.
Assim fez Iemanjá.
E a primeira humanidade foi destruída.


[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi, publicado pela Cia das Letras, pág 386. Originalmente encontrado em Lydia Cabrera, 1980, pp. 32-3.

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Oxum Navezuarina cega seus raptores



Um dia houve uma grande guerra entre as tribos.
Nessa guerra os soldados aprisionaram diversas moças.
Uma delas era uma virgem chamada Navezuarina.
Quando os jovens raptores levavam as moças aprisionadas,
Navezuarina invocou sua força mágica
e fez surgir um intensíssimo clarão.
O clarão cegou os guerreiros que levavam as prisioneiras.
Os soldados ficaram perambulando no mato, sem direção.
Como eles já nada enxergavam,
elas pensaram em fugir e voltar para sua aldeia.
Navezuarina, que é outro nome de Oxum,
pegou uma cuia e preparou uma poção com ervas.
Ela passou a mistura nos olhos dos guerreiros
e eles recobraram a visão.
Agradecidos, soltaram todas as prisioneiras.
Elas voltaram ao seu lar no país dos nagôs.
Navezuarina voltou para casa com as amigas,
voltou em companhia de Dantã e as outras.
Todas voltaram para sua aldeia,
onde são sacerdotisas da casa de Queviossô.
E elas andam juntas até hoje,
usando sempre roupas cor-de-rosa.
[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi, publicado pela Cia das Letras, pág 326. Originalmente encontrado em Sérgio Ferretti, pesquisa de campo, São Luís, 1997. Narrado por Pai Jorge Itaci, chefe do terreiro mina de Iemanjá. Navezuarina, ou Navê, Dantã e Queviossô são voduns cultuados no tambor-de-mina.

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Erinlé é chamado Ibualama


Havia um caçador chamado Erinlé,
o grande caçador de elefantes.
Um dia uma mulher passava perto de um rio
e ali perto, junto ao bosque, avistou o caçador.
Ele pediu a ela que lhe desse água para beber.
A mulher entrou no rio até a altura dos joelhos
e, quando se inclinou para apanhar água,
ouviu de Erinlé a ordem de que entrasse mais fundo.
Mais fundo no rio entrou a mulher,
mas, percebendo que o rio ia afogá-la,
saiu imediatamente da água, com medo de ser morta.
Ela ouviu então a voz do caçador, que era o próprio rio,
reclamando que ela não lhe trazia oferenda alguma.
Ela queria recolher sua água, mas nada lhe dava em troca.
Ninguém pode entrar no rio profundo sem trazer presentes.
Tempos depois, quando Erinlé foi cultuado como orixá,
seus seguidores o chamaram de Ibualama,
que quer dizer “Água Profunda”.

[Notas Bibliográficas e Comentários]


Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi, publicado pela Cia das Letras, págs 132-3. Originalmente encontrado em Pierre verger, 1957, p. 210 (1999, pp. 211-212).

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