sexta-feira, 3 de junho de 2011

Obatalá promove a inveja e é feito em mil pedaços


Obatalá foi ao mercado e comprou um escravo.
Pôs os escravo trabalhando em sua terra.
O escravo trabalhou duro e a terra floresceu.
Obatalá ficou feliz.
Todos ficaram com inveja da plantação de Obatalá.
Um dia Obatalá estava caminhando por suas terras
quando o escravo, subornado pelos invejosos,
rolou uma imensa pedra sobre ele e o esmagou.
A pedra esmagou Obatalá
e seu corpo foi feito em mil pedaços.
Olorum viu tudo isso e, descontente,
mandou Exu recolher os mil pedaços de Oxalá.
Exu recolheu de Obatalá todos os pedaços que encontrou,
mas não pôde encontrar todas as partes.
Levou o que pôde a Olorum
e Olorum juntou os pedaços de novo e deu vida a Obatalá.
Mas Exu não pôde de fato encontrar todas as partes,
pois muitas delas se perderam longe, muito longe.
Por isso, dizem,
Obatalá está espalhado pelo mundo inteiro.
Obatalá está em todo lugar.

[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi, publicado pela Cia das Letras, págs 507-8. Originalmente retirado de Rita de Cássia Amaral, pesquisa de campo, São Paulo, 1996; Ulli Beier, 1980, pp. 6-7. A versão publicada em Harold Courlander (1973, pp. 101-3) e retomada por Wole Soyinka (1995, p. 152) conta que de cada pedaço de Obatalá foi feito um novo orixá. Outra versão (Jan Knappert, 1995, p. 189) diz que era Exu o escravo que, cansado de trabalhar como mensageiro, jogou uma pedra na casa de Obatalá, fazendo-o em pedaços, os quais originaram os outros orixás.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

Ajagunã instaura o reino da discórdia e promove o progresso

Olodumare dividiu com seus filhos orixás
a difícil incumbência de governar o mundo.
Ajagunã também teve seu encargo, seu posto, seu oiê.
Foi-lhe destinado o domínio do progresso.
Mas, em vez do progresso,
ele plantou o conflito, a discórdia e a revolução.
Com ele a humanidade conheceu de perto a revolução.
Por vontade de Ajagunã, a cizânia se fez entre homens e nações.
Governando um grande território africano,
Ajagunã guerreava sempre com seus vizinhos.
Mas os vizinhos iam a Olofim-Olodumare
e protestavam pela agressividade de Ajagunã.
Diante de tantos protestos,
o Ser Supremo chamou e o repreendeu por seus exageros.
Ajagunã contestou dizendo que seu pai vivia confortavelmente,
sempre sentado na mesma cômoda posição,
não se dando conta do furor transformador
que a discórdia de Ajagunã gerava na terra.

Ajagunã seguiu guerreando pelo mundo,
fazendo do cotidiano dos povos um pandemônio,
alastrando a arruaça, o tumulto, a balbúrdia e o litígio.
Até que um dia Olofim tirou-lhe o reino
e o baniu para um distante continente.
No exílio, Ajagunã encontrou um povo que vivia em paz
e isso enlouqueceu Ajagunã.
Rapidamente criou a discórdia entre aquelas tribos
e a guerra instalou-se no país.
Tanta guerra fez que ela voltou a se espalhar mundo afora.
Olodumare, alarmado, chamou o filho
e pediu-lhe que repensasse sua forma de agir.
Ajagunã disse-lhe que a discórdia era necessária para o progresso,
somente daquela forma o ser humano criaria anseios
de crescer e conquistar novos caminhos.
Sim, ele estava exercendo
a função que o pai lhe atribuíra,
defendeu-se.
O Supremo Criador aceitou as explicações de Ajagunã.
O mundo continuou a guerrear.
O mundo continuou a progredir.
Ajagunã não pára nem para descansar.

[Notas Bibliográficas e Comentários]
Transcrito do livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi, publicado pela Cia das Letras, págs 493-4. Originalmente retirado de Lydia Cabrera, 1993, pp. 296-7.
Oiê [oyè] – cargo, posto hierárquico, título.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Odé desrespeita proibição ritual e morre

 
Naquele dia a caça era proibida.
Ninguém podia trabalhar.
Era dia de ir à casa de Ifá levar as oferendas.
Mas Odé queria caçar,
como fazia todo dia.
Odé não se importou com o interdito.
Odé não foi consultar o advinho.
Odé tranquilamente foi caçar,
seguiu o caminho da floresta.
Oxum, sua esposa, cansada de ver o marido
quebrar os sagrados tabus,
abandonou a casa e o esposo.



Caminhando pela mata, Odé escutou um canto que dizia:
“Eu não sou passarinho para ser morta por ti...”.
Era o canto de uma serpente, era Oxumarê.
Odé não se importou com o canto
e atravessou a cobra com a lança,
partindo-a em vários pedaços.
Odé tomou o caminho de sua casa
e, no percurso, continuou escutando o mesmo canto:
“Eu não sou passarinho para ser morta por ti...”.

Ao chegar em casa, Odé foi para a cozinha,
preparou uma iguaria com o fruto de sua caça
e comeu a saborosa comida imediatamente.
Pela manhã Oxum retornou a casa
para ver como estava o marido caçador.
Para seu espanto, encontrou morto o seu Odé.
Odé estava morto, o corpo caído no chão.
Ao lado de Odé, Oxum viu um rastro de serpente
que se alongava até a entrada da floresta.
Desesperada, Oxum foi procurar Orunmilá.
E ofereceu muitos sacrifícios.
Orunmilá deixou Odé viver de novo.
Deu a Odé o cargo de protetor do caçadores.
E Odé foi transformado em orixá.

[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, págs 114-125. Originalmente retirado de Monique Augras, 19883, pp. 112-3. Odé, caçador em ioruba, é um nome genérico para vários orixás da caça, como Oxóssi, Erinlé, Logum Edé. No xangô, nome da religião dos orixxás em Pernambuco, e no batuque do Rio Grande do Sul usa-se Odé para referir-se a Oxóssi. No candomblé, o nome Odé aparece nas cantigas, rezas e nomes rituais, mas o nome pelo qual os devotos se referem ao orixá é Oxóssi.

Axé a todos os nossos irmãos!
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Olorum Colofé!

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Xangô rouba Iansã de Ogum

Xangô um dia cansou-se da monotonia da corte
e partiu e busca de novas aventuras.
Chegou a Irê, onde morava Ogum, nobre guerreiro, senhor da forja.
Ogum vivia com Iansã, senhora dos ventos e das tempestades.
Xangô apreciava ver o trabalho de Ogum na forja
e sempre arriscava olhar para a mulher,
driblando a vigilância do ferreiro.
Iansã por sua vez encantava-se com o porte a nobreza de Xangô.
Um dia, fugiram e chegaram a Oió.
Lá reinava o meio-irmão de Xangô, Dadá Ajacá.
Dadá deixou que Xangô o ajudasse no comando do reino.
Nas terras de Oió, Xangô fundou Cossô, seu reino próprio,
sendo chamado Obá Cossô, rei de Cossô.
Assim, o reino de Dadá expandiu-se por força de Xangô.
Um dia Xangô destronou seu irmão.
Tornou-se o senhor absoluto e o povo aclamava:
“Kabiyesi Xangô, Alafin Oió Alayeluwa!”.
“Viva sua majestade Xangô,
dono do palácio de Oió e Senhor da Terra.”
Xangô ergueu seu palácio com esplendor,
teve mulheres e muitos filhos.
Sempre acompanhado de Iansã.
Oxum foi a segunda mulher, seguida de Obá.

[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, págs 248-9. Originalmente retirado de Pierre Verger, 1985, p. 37-8.

Axé a todos os nossos irmãos!
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Olorum Colofé!

Iansã proíbe Xangô de comer carneiro perto dela


Um dia Xangô passeava a cavalo.
Avistou um palácio e disse:
“Eu vou pra lá”.
Quando chegou, quis saber do porteiro quem era o dono.
“É de Oiá”, respondeu o porteiro.
E Xangô disse: “Eu quero falar com ela”.
O porteiro respondeu que era impossível.
“Mas eu quero falar com ela”, insistiu Xangô.
Então o porteiro foi até Iansã
e contou que lá fora um cavaleiro, um rei, queria vê-la.
Iansã chamou Xangô para dentro,
mas, quando ele fez referência na frente dela,
Iansã imediatamente sentiu o cheiro de carneiro.
Então Xangô perguntou se ela queria ser sua esposa.
Iansã perguntou de que lugar ele vinha
e quis saber qual era a comida que ele comia.
“Curi agbô. Carneiro”, respondeu Xangô.
“Não, eu não quero me casar contigo
porque comes isso que eu detesto.”
Mas Iansã acabou por concordar com o casamento
desde que fosse mantida uma restrição:
toda vez que ele quisesse comer carneiro,
que ele voltasse para sua terra
e por lá ficasse por três meses, antes de regressar.
Xangô aceitou a proposta e eles se casaram.
Casaram-se mas não vivem juntos.
Essa é a razão por que Oxum é concubina de Xangô.


[Notas Bibliográficas e Comentários]


Transcrito do livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, págs 299-300. Originalmente retirado de Rita Segato, 1995, pp. 390-1.

Axé a todos os nossos irmãos!
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