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sexta-feira, 3 de junho de 2011

Ajagunã instaura o reino da discórdia e promove o progresso

Olodumare dividiu com seus filhos orixás
a difícil incumbência de governar o mundo.
Ajagunã também teve seu encargo, seu posto, seu oiê.
Foi-lhe destinado o domínio do progresso.
Mas, em vez do progresso,
ele plantou o conflito, a discórdia e a revolução.
Com ele a humanidade conheceu de perto a revolução.
Por vontade de Ajagunã, a cizânia se fez entre homens e nações.
Governando um grande território africano,
Ajagunã guerreava sempre com seus vizinhos.
Mas os vizinhos iam a Olofim-Olodumare
e protestavam pela agressividade de Ajagunã.
Diante de tantos protestos,
o Ser Supremo chamou e o repreendeu por seus exageros.
Ajagunã contestou dizendo que seu pai vivia confortavelmente,
sempre sentado na mesma cômoda posição,
não se dando conta do furor transformador
que a discórdia de Ajagunã gerava na terra.

Ajagunã seguiu guerreando pelo mundo,
fazendo do cotidiano dos povos um pandemônio,
alastrando a arruaça, o tumulto, a balbúrdia e o litígio.
Até que um dia Olofim tirou-lhe o reino
e o baniu para um distante continente.
No exílio, Ajagunã encontrou um povo que vivia em paz
e isso enlouqueceu Ajagunã.
Rapidamente criou a discórdia entre aquelas tribos
e a guerra instalou-se no país.
Tanta guerra fez que ela voltou a se espalhar mundo afora.
Olodumare, alarmado, chamou o filho
e pediu-lhe que repensasse sua forma de agir.
Ajagunã disse-lhe que a discórdia era necessária para o progresso,
somente daquela forma o ser humano criaria anseios
de crescer e conquistar novos caminhos.
Sim, ele estava exercendo
a função que o pai lhe atribuíra,
defendeu-se.
O Supremo Criador aceitou as explicações de Ajagunã.
O mundo continuou a guerrear.
O mundo continuou a progredir.
Ajagunã não pára nem para descansar.

[Notas Bibliográficas e Comentários]
Transcrito do livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi, publicado pela Cia das Letras, págs 493-4. Originalmente retirado de Lydia Cabrera, 1993, pp. 296-7.
Oiê [oyè] – cargo, posto hierárquico, título.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

terça-feira, 31 de maio de 2011

Ogum faz instrumentos agrícolas para Oxaguiã

Oxaguiã, rei de Ejigbô, o Elegjibô,
chamado “Orixá-Comedor-de-Inhame-Pilado”,
inventou o pilão para saborear mais facilmente
seus prediletos inhames.
Todo o povo de seu reino adotou sua preferência.
Todo o povo de Ejigbô comia inhame pilado.
E tanto se comia inhame em Ejigbô
Que já não se dava conta de plantá-lo.
E assim, grande fome se abateu sobre o povo de Oxalá.

Oxaguiã foi consultar Exu,
que o mandou fazer sacrifícios
e procurar o ferreiro Ogum,
que naquele tempo vivia nas terras de Ijexá.
O que podia fazer Ogum
para que o povo de Ejigbô tivesse mais inhame?,
consultou Oxaguiã.
Ogum pediu sacrifícios e logo deu a solução.
Em sua forja, Ogum fez ferramentas de ferro.
Fez a enxada e o enxadão, a foice a pá,
fez o ancinho, o rastelo, o arado.
“Leve isso ao seu povo, Elejigbô,
e o trabalho na plantação vai ser mais fácil.
Vão colher muitos inhames,
mais do que agora quando plantam com as mãos”, disse Ogum.
E assim foi feito e nunca se plantou tanto inhame
e nunca se colheu tanto inhame.
E a fome acabou.

O povo de Ejigbô, agradecido, cultuou Ogum
e ofereceu a ele banquetes de inhames e cachorros,
Caracóis, feijão-preto regado com azeite-de-dendê e cebolas.
Ogum disse a Oxaguiã:
“Na casa de seu pai todos se vestem de branco,
por isso assim também me visto para receber as oferendas”.
E o povo o louvava
e Ogum ficou feliz.
E o povo cantava:
“A kaja lónì Ògunja mojuba”.
“Hoje fazemos sacrifício de cachorros a Ogum,
Ogunjá, Ogum que come cachorro, nós te saudamos”.
Oxaguiã disse a Ogum:
“Meu povo nunca há de se esquecer de sua dádiva.
Dê-me um laço de seu abada azul, Ogum,
para eu usar no meu axó funfum, minha roupa branca.
Vamos sempre nos lembrar de Ogunjá”.
E, do reino de Ejigbô
até as terras de Ijexá,
todos cantaram e dançaram.


[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi, publicado pela Cia das Letras, págs 91-92. Originalmente retirado de Reginaldo Prandi, pesquisa de campo, Salvador, 1994. O mito dá razões para o uso de roupa branca por Ogunjá, qualidade de Ogum, e para o uso de algum pedaço de azul na roupa branca de Oxaguiã. Para Mestre Didi, Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Oxaguiã é um Oxalá com um pouquinho de azul e Ogunjá é um Oxalá com bastante azeite-de-dendê.

Axó [asò] – Roupa.

Funfum [funfun] – Branco.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Oxaguiã manda libertar o amigo preso injustamente



O filho de Oxalufã tornou-se um guerreiro forte
e decidiu um dia conquistar um reino para si.
Partiu em companhia de seu amigo Auoledjê.
Conquistou Ejigbô, tornando-se seu rei, Elejigbô.
O rei tinha uma grande paixão, comer inhame pilado.
E comia com gula, tanto que o chamavam Oxaguiã,
que quer dizer "Oxalá-Comedor-de-Inhame-Pilado".

Um dia Auoledjê, que era um grande babalaô,
precisou partir de Ejigbô.
Antes disso, aconselhou Oxaguiã
que fizesse oferendas,
que tornariam o reino próspero.
Assim, como previa Auoledjê,
Ejigbô tornou-se uma grande cidade,
rica e bem guardada pelos bravos soldados de Oxaguiã.
O rei Elejigbô vivia em fausto entre os súditos,
por quem era chamado de "Kabiyesi",
que é o mesmo que Sua Majestade.
Na intimidade os amigos o chamavam de "Comedor-de-Inhame-Pilado",
mas em público isso era uma heresia.

Anos mais tarde, Auoledjê retornou a Ejigbô.
Ao adentrar a cidade, procurou logo por Oxaguiã.
"Onde está o Comedor-de-Inhame-Pilado?", perguntou.
Os soldados, que não o conheciam,
ficaram furiosos com tamanha insolência.
Isso era jeito de se referir ao rei?
Prenderam e maltrataram o desconhecido amigo de Kabiyesi.
Auoledjê ressentiu-se da humilhação.
Com seus poderes mágicos, vingou-se.
durante sete anos todas as catástrofes conhecidas,
e não faltando a seca, assolaram o reino de Oxaguiã.

Oxaguiã, desesperado, procurou os adivinhos.
E pelo oráculo eles viram a prisão de Auodjelê.
Um amigo do rei estava preso injustamente.
Oxaguiã correu para a prisão para libertar o velho amigo.
Oxaguiã libertou-o,
mas o amigo, ainda ressentido, escondeu-se na mata.
Elejigbô buscou o velho amigo, suplicando seu perdão.
Auodjelê cedeu com uma condição:
que nunca aquele povo se esquecesse dessa injustiça.
Todos os anos o povo deveria flagelar-se,
em memória do funesto acontecido.
Assim, todos os anos,
o rei deveria mandar muitas pessoas à floresta cortar varetas.
os súditos, divididos em dois grupos, tomariam as varas,
simulariam golpes uns nos outros, sem parar,
até que as varetas se quebrassem.
Para que nunca se esquecessem daquela injustiça
praticada contra o amigo de Oxaguiã.
Assim foi feito e o reino de Oxaguiã voltou à tranqüilidade
e Oxaguiã foi o maior dos reis de Ejigbô.
Quando ele foi para o Orum, transformado em orixá,
seu culto não se esqueceu do velho amigo babalaô.
Com as varetas de Oxaguiã, com os atoris,
seus adeptos renovam sempre a memória da injustiça,
para que ela não volte a acontecer.


[Notas Bibliográficas e Comentários]


Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Peginaldo Prandi, publicado pela Cia das letras, págs 491-2. Originalmente encontrado e/ou transcrito de Pierre Verger, 1981 (b), pp. 64-8; Verger, 1985, pp. 65-7. No Brasil e em Cuba, Oxaguiã é cultuado como qualidade de Oxalá-Orixalá. É dito Oxalá Jovem no Brasil e O Velho em Cuba. Na África é uma divindade independente. Na África, até hoje, todos os anos no final da estação da seca habitantes de dois bairros de Ejigbô reúnem-se e batem-se com varetas durante todo um dia, a fim de representar sua súplica para que a chuva retorne. Nos candomblés, tal costume é reproduzido no ciclo de festas em homenagem a Oxalá ( as Águas-de-Oxalá), especialmente na parte reservada a Oxaguiã (o Pilão de Oxaguiã), quando os devotos do terreiro se dividem em dois grupos que se batem com as varetas (atori), em rito de expiação.


Atori [àtòrì] - Vareta usada para flagelação em cerimônia a Oxaguiã; representa os ancestrais; vara da árvore africana Glyphaea lateriflora.


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domingo, 8 de agosto de 2010

Ajagunã ganha uma cabeça nova!



Ajagunã nasceu de Obatalá.
Só de Obatalá.
Nasceu num igbim, num caramujo.
Logo que nasceu, Ajagunã se revoltou.
Ajagunã não tinha ori, não tinha cabeça
e andava pela vida sem destino certo.

Um dia, quase louco, encontrou Ori na estrada
e Ori fez para Ajagunã uma cabeça branca.
Era de inhame pilado sua cabeça.
Mas a cabeça de inhame esquentava muito
e Ajagunã sofria torturantes dores de cabeça.
De outra feita, lá ia pela estrada
Ajagunã padecendo de seus males,
quando se encontrou com Icu, a Morte.
Icu se pôs a dançar para Ajagunã e se ofereceu 
para dar a ele outro ori.
Oxaguiã, com medo, recusou prontamente,
mas era tão insuportável o calor que ele sentia
que não pôde recusar por muito tempo a oferta.
Icu prometeu-lhe um ori negro.
Icu ofereceu-lhe um ori frio.
Ele aceitou.

A sorte de Ajagunã contudo não mudou.
Era fria e dolorida essa cabeça negra.
Mas o pior era o terror que não o abandonava
de sentir-se perseguido por mil sombras.
Eram as sombras da Morte em sua cabeça fria.
Então seguiu Ogum e deu sua espada a Ajagunã.
E com a espada ele afugentou a Morte e as suas sombras.
Ogum fez o que pôde para socorrer o amigo,
com a faca retirando o Ori frio grudado no ori quente.
Na operação de Ogum as duas cabeças se fundiram
e o ori de Oxaguiã fica azulado,
um novo ori nem muito quente, nem muito frio.
Uma cabeça quente não funciona bem.
Uma cabeça fria também não.
Foi o que se aprendeu
com a aventura de Ajagunã.

Finalmente a vida de Ajagunã se normalizou.
Com a ajuda de Ogum, mais uma vez,
o orixá aprendeu todas as artes bélicas
e assim venceu na vida muitas batalhas e guerras.
Hoje, o seu nome, como o nome de Ogum,
é relembrado entre os dos mais destemidos generais.
E foi assim que Oxaguiã foi chamado Ajagunã,
título do mais valente entre todos os guerreiros.

[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, Págs 489-90. Originalmente transcrito de Reginaldo Prandi, pesquisa de campo, São Paulo, 1997.
Igbim - Caracol catassol; animal predileto de Oxalá.
ori - cabeça; destino. 
Ori - Divindade da cabeça de cada indivíduo; recebe oferendas no ritual do bori.

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sábado, 31 de julho de 2010

Oxaguiã inventa o pilão!


Oxalá, rei de Ejigbô, vivia em guerra.
Ele tinha muitos nomes,
una o chamavam de Elemoxó, outros de Ajagunã,
ou ainda Aquinjolê, filho de Oguiriniã.
Gostava de guerrear e de comer.
Gostava muito de uma mesa farta.
Comia caracóis, canjica, pombos brancos,
mas gostava mais de inhame amassado.
Jamais se sentava para comer se faltasse inhame.
Seus jantares estavam sempre atrasados,
pois era muito demorado preparar o inhame.
Elejigbô, o rei de Ejigbô, estava assim sempre faminto,
sempre castigando as cozinheiras,
sempre chegando tarde para fazer a guerra.
Oxalá então consultou os babalaôs,
dez suas oferendas a Exu
e trouxe para a humanidade uma nova invenção.
O rei de Ejigbô inventou o pilão
e com o pilão ficou mais fácil preparar o inhame
e Elejigbô pôde se fartar
e fazer todas as suas guerras.
Tão famoso ficou o rei por seu apetite pelo inhame
que todos agora o chamam de
"Orixá-Comedor-De-Inhame-Pilado",
o mesmo que Oxaguiã na língua do lugar.


[Notas Bibliográficas e Comentários]

Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi publicado pela Cia das Letras, Pág 488. Mito corrente nos candomblés. Fragmento em José Beniste, 1997, p. 223. Oxaguiã, por ter inventado o pilão, é considerado o criador da cultura material, tendo assim completado a criação de Oxalufã-Obatalá.

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quinta-feira, 8 de julho de 2010

Nasce um filho de Oxalá.

No dia em que o Yaônilé completa 7 meses de existência, um filho de Oxalá dá comida à sua cabeça.


Bàbá esá rè wá
Ewa agbá awo a sare wá
A jé àguntan
A sare wá ewa agbá awo
Ibá Orisà yin agbá òginyón.


Aguardem.


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