terça-feira, 19 de outubro de 2010

Ossaim dá uma folha para cada orixá




Ossaim, filho de Nanã e irmão de Oxumarê, Euá e Obaluaê,
era o senhor das folhas, da ciência e das ervas,
o orixá que conhece o segredo da cura e o mistério da vida.
Todos os orixás recorriam a Ossaim
para curar qualquer moléstia, qualquer mal do corpo.
Todos dependiam de Ossaim na luta contra a doença.
Todos iam a casa de Ossaim oferecer seus sacrifícios.
Em troca Ossaim lhes dava preparados mágicos:
banhos, chás, infusões, pomadas,
abô, beberagens.
Curava as dores, as feridas, os sangramentos;
as disinterias, os inchaços e fraturas;
curava as pestes, febres, órgãos corrompidos;
limpava a pele purulenta e o sangue pisado;
livrava o corpo de todos os males.
Um dia Xangô, que era o Deus da justiça,
julgou que todos os orixás deveriam compartilhar o poder do Ossaim,
conhecendo o segredo das ervas e dom da cura.
Xangô sentenciou
que Ossaim dividisse suas folhas com os outros orixás.
Mas Ossaim negou-se a dividir suas folhas com os outros orixás.
Xangô então ordenou
que Iansã soltasse o vento e trouxesse ao seu palácio
todas as folhas das matas de ossaim
para que fossem distribuídas aos orixás.
Iansã fez o que xangô determinara.
Gerou um furacão que derrubou as folhas das plantas
e as arrastou pelo ar em direção ao palácio de Xangô.
Ossaim percebeu o que estava acontecendo e gritou:
"Euê uassá!"
"As folhas funcionam!"
Ossaim ordenou às folhas que voltassem às suas matas
e as folhas obedeceram às ordens de Ossaim.
Quase todas as folhas retornaram para Ossaim.
As que já estavam em poder de Xangô perderam o axé,
perderam o poder da cura.



O orixá-rei que era um orixá justo,
admitiu a vitória de Ossaim.
Entendeu que o poder das folhas devia ser exclusivo de Ossaim
e que assim devia permanecer através dos séculos.
Ossaim, contudo, deu uma folha para cada orixá,
deu uma euê para cada um deles.
cada folha com seus axés e seus ofós,
que são as cantigas de encantamento,
sem as quais as folhas não funcionam.
Ossaim distribuiu as folhas aos orixás
para que eles não mais o invejassem.
Eles também podiam realizar proezas com as ervas,
mas os segredos mais profundos ele guardou para si.
Ossaim não conta seus segredos para ninguém,
Ossaim nem mesmo fala.
Fala por ele seu criado Aroni.
Os orixás ficaram gratos a Ossaim
e sempre o reverenciam quando usam as folhas.



[Notas Bibliográficas e Comentários]
Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi, publicado pela Cia das Letras, págs 153-4. Originalmente encontrado em Lydia Cabrera, 1954, p. 100; Pierre Verger, 1957, p. 230 [1999, p. 228]; Roger Bastide, 1978, pp. 155-6; Verger, 1985, p. 24; José Flávio Pessoa de Barros, 1989, p. 23; Agenor Miranda Rocha, 1994, p. 78.


Abô [àgbo] - Infusão de água com folhas maceradas e outras substâncias como mel, sangue, etc.
Axé [àse] - Força mística dos orixás, força vital que transforma o mundo.
Euê [ewé] - Folha.
Ofó [ofó] - Cantiga de encantamento.


Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

Ogum mata seus súditos e é transformado em orixá

Ogum, filho de Odudua, sempre guerreava,
trazendo o fruto da vitória para o reino de seu pai.
Amante da liberdade e das aventuras amorosas,
foi com uma mulher chamada Ojá que Ogum teve o filho Oxóssi.
Depois amou Oiá, Oxum e Obá,
as três mulheres de seu maior rival, Xangô.
Ogum seguiu lutando e tomou pra si a coroa de Irê,
que na época era composto de sete aldeias.
Era conhecido como Onirê, o rei de Irê,
deixando depois o trono para seu próprio filho.

Ogum era o rei de Irê, Omi Irê, Ogum Onirê.
Ogum usava a coroa sem franjas chamada acorô.
Por isso também era chamado de Ogum Alacorô.
Conta-se que, tendo partido para a guerra,
Ogum retornou a Irê depois de muito tempo.
Chegou num dia em que se realizava um ritual sagrado.
A cerimônia exigia a guarda total do silêncio.
Ninguém podia falar com ninguém.
Ninguém podia dirigir o olhar para ninguém.
Ogum sentia sede e fome, mas ninguém o atendia.
Ninguém o ouvia, ninguém falava com ele.
Ogum pensou que não havia sido reconhecido.
Ogum sentiu-se desprezado.
Depois de ter vencido a guerra,
sua cidade não o recebia.
Ele, o rei de Irê!
Não reconhecido por sua própria gente!
Humilhado e enfurecido, Ogum, espada em punho,
pôs-se a destruir a tudo e a todos.
Cortou a cabeça de seus súditos.
Ogum lavou-se com sangue.
Ogum estava vingado.
Então a cerimônia religiosa terminou
e com ela a imposição de silêncio foi suspensa.
Imediatamente, o filho de Ogum,
acompanhado por um grupo de súditos,
ilustres homens salvos da matança,
veio á procura do pai.
Eles renderam as homenagens devidas ao rei
e ao grande guerreiro Ogum.
Saciaram sua fome e sede.
Vestiram Ogum com roupas novas,
cantaram e dançaram pra ele.
Mas Ogum estava inconsolável.
Havia matado quase todos os habitantes da sua cidade.
Não se dera conta das regras de uma cerimônia
tão importante para todo o reino.
Ogum sentia que já não podia ser o rei.
E Ogum estava arrependido de sua intolerância,
envergonhado por tamanha precipitação.
Ogum fustigou-se dia e noite em autopunição.
Não tinha medida seu tormento,
nem havia possibilidade de autocompaixão.
Ogum então enfiou sua espada no chão
e num átimo de segundo a terra se abriu
e ele foi tragado solo abaixo.
Ogum estava no Orum, o Céu dos deuses.
Não era mais humano.
Tornara-se um orixá.

[Notas Bibliográficas e Comentários]
Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi, publicado pela Cia das Letras, págs 89-91. Originalmente encontrado em Pierre Verger, 1957, p. 142 [1999, p. 152]; Ulli beier, 1980, pp. 34-5; Verger, 1980, p.286; Verger, 1981 (b), pp. 23-4; Verger, 1985, p. 15; Agenor Miranda Rocha, 1994, pp. 70-2.

Acorô [Kóró] - Pequena coroa usada por Ogum.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

Exu come tudo e ganha o privilégio de comer primeiro




Exu era o filho caçula de Iemanjá e Orunmilá,
irmão de Ogum, Xangô e Oxóssi.
Exu comia de tudo
e sua fome era incontrolável.
Comeu todos os animais da aldeia em que vivia.
Comeu os de quatro pés e comeu os de pena.
Comeu os cereais, as frutas, os inhames, as pimentas.
Bebeu toda a cerveja, toda a aguardente, todo o vinho.
Ingeriu todo o axeite-de-dendê e todos os obis.
Quanto mais comia, mais fome Exu sentia.
Primeiro comeu tudo de que mais gostava,
depois começou a devorar as árvores,
os pastos, e já ameaçava engolir o mar.
Furioso, Orunmilá compreendeu que Exu não pararia
e acabaria por comer até mesmo o Céu.
Orunmilá pediu a Ogum
que detivesse o irmão a todo custo.
Para preservar a Terra e os seres humanos e os próprios orixás,
Ogum teve que matar o próprio irmão.

A morte, entretanto, não aplacou a fome de Exu.
Mesmo depois de morto
podia-se sentir sua presença devoradora,
sua fome sem tamanho.
Os pastos, os mares, os poucos animais que restavam,
todas as colheitas, até os peixes iam sendo consumidos.
Os homens não tinham mais o que comer
e todos os habitantes da aldeia adoeceram
e de fome, um a um, foram morrendo.
Um sacerdote da aldeia consultou o oráculo de Ifá
e alertou Orunmilá quanto ao maior dos riscos:
Exu, mesmo em espírito, estava pedindo sua atenção.
Era preciso aplacar a fome de Exu.
Exu queria comer.
Orunmilá obedeceu ao oráculo e ordenou:
"Doravante, para que Exu não provoque mais catástrofes,
sempre que fizerem oferendas aos orixás
deverão em primeiro lugar servir comida a ele".
Para haver paz e tranquilidade entre os homens,
é preciso dar de comer a Exu,
em primeiro lugar.

[Notas Bibliográficas e Comentários]
Transcrito do Livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi, publicado pela Cia das Letras, págs 45-6. Originalmente encontrado em Rita de Cássia Amaral, pesquisa de campo, São Paulo, 1986. Em todas as cerimônias do candomblé, Exu é sempre o primeiro a receber homenagens e sacrifícios. Outros mitos também tratam dessa prerrogativa de Exu.

Obi [Obì] - Noz-de-cola, fruto africano aclimatado no Brasil (Cola acuminata, Streculicea), indispensável nos ritos de candomblé; substituído em Cuba pelo coco.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

domingo, 17 de outubro de 2010

Beija-Flor, um espetáculo azul e branco!



A Beija-Flor de Nilópolis nasceu nas comemorações do Natal de 1948. Um grupo formado por Milton de Oliveira (Negão da Cuíca), Edson Vieira Rodrigues (Edinho do Ferro Velho), Helles Ferreira da Silva, Mário Silva, Walter da Silva, Hamilton Floriano e José Fernandes da Silva resolveu formar um bloco que, depois de várias discussões, por sugestão de D. Eulália de Oliveira, mãe de Milton, recebeu o nome de Beija-Flor (inspirado no Rancho Beija-Flor, que existia em Marquês de Valença). Dona Eulália foi admitida como fundadora.

Em 1953, o Bloco Associação Carnavalesca Beija-Flor, vitorioso no bairro, foi inscrito por Silvestre David do Santos (Cabana) integrante da ala dos compositores, como escola de samba, na Confederação das Escolas de Samba, para o desfile oficial de 1954, no segundo grupo.

No seu primeiro desfile, em 1954, foi campeã passando para o grupo I, no qual permaneceu até 1963. Em 1974, retornou para o Grupo I resultado do bom trabalho desenvolvido por Nelson Abraão David. Em 1977, Aniz Abraão David assume a Presidência e projeta a Escola de Samba de Nilópolis como uma das mais famosas do mundo.


A Beija-Flor emociona principalmente com a Ala das baianas. Aquelas lindas senhoras com suas grandes saias rodadas são verdadeiros reservatórios de emoção e amor capazes de dar legitimidade a qualquer agremiação. Uma escola de samba sem ala de baianas não é uma escola de samba. Fica-lhe faltando a alma, a essência, a raiz e a verdade. 

Sua musicalidade sempre foi louvada como uma expressão fundamental da alma brasileira, ecoando os cantos negros, os sons do interior do país e a essência musical popular. Em seus movimentos de braços e giros acumulavam-se devoções, procissões, cultos africanos, católicos, cortejos e danças religiosas traduzidas em apresentações únicas, soberbas, sempre louvadas pela intelectualidade e aplaudidas pelo público mesmerizado por uma “coreografia” popular e espontânea. Sua fantasia – baseada nas indumentárias tradicionais das baianas quituteiras que ocupavam as ruas do Rio de Janeiro desde finais do século XVIII – reunia itens tradicionais – como os panos da costa, os torsos, as saias rodadas e o balangandãs – a elementos singelos – como cestinhas de flores, pequenas bandeiras, aviões de plástico, réplicas de planetas – que ajudavam a contar o “enredo” apresentado pela escolas.


A responsabilidade social é uma constante para a Beija-Flor através das ações desenvolvidas junto à comunidade como ballet, educandário, creche, esportes, entre outros. O carnaval da Beija Flor traz em 2011 o tema "Roberto Carlos: A simplicidade de um rei". 

Saiba Mais sobre a Beija-Flor em seu site.

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!

Jauperi tá chegando por aqui!


Todo mundo deveria ouvir o Jau. Uma voz inconfundível, um talento, um axé. Jau me inspira profundamente e de maneira arrebatadora. Paixão mesmo, é fato! Quando vi esse banner no Twitter, corri pra cá pra compartilhar com vocês. Ele vai estar aqui em Aracaju!


A voz de Jau tem cor. É preta e vem do Olodum, da Bahia, da África, do Mundo. A voz de Jau tem sabor, é doce como a cana-de-açúcar, flambada na cachaça pura dos engenhos do nordeste. A voz de Jau tem luz, uma luz profana e sagrada, abençoada por Deus e respeitada por todos que fazem da música, sua profissão. Uma voz que chega, para no ar, invade as ruas, ecoa nas ladeiras e conquista Roma. A voz de Jau tem poder.

Menino moleque, nascido no Rio Vermelho em 27 de setembro de 1969, com a benção de São Cosme e São Damião, criado entre 14 mulheres, Jauperi Lázaro é a afirmação de que a música baiana é a música mais pop do Brasil. Suas composições, interpretadas por ele e vários artistas, ensinam a entender a nova Bahia, uma Bahia que não quer perder seu passado, mas não se admite em outro lugar que não seja o Topo do Mundo.


Em 1988, passou a integrar oficialmente o Olodum, como autor e intérprete, e faz sua primeira viagem para a Europa, onde participou dos mais importantes festivais de música como Montreux, Womad, Metisse Musique, e tocou com astros da música nacional e internacional como Paul Simon, Tracy Chapman, Joan Baez, Djavan, Marisa Monte e Paralamas do Sucesso. A precocidade do menino do Rio Vermelho também se mostrou em seu primeiro trabalho profissional aos 19 anos, ao vencer, em 1989, o Festival de Música e Arte do Olodum (Femadum) com a música Olodum, sonho e profecia e carimbar seu passaporte para o mundo musical.

Um dos mais prestigiados compositores baianos da atualidade com canções gravadas pelos grandes nomes da música baiana, Jau se supera a cada projeto. Prova disto foi o sucesso meteórico da banda Afrodisíaco - que depois mudou de nome passando a se chamar Vixe Mainha -, projeto criado junto com o parceiro desde os tempos do Olodum, Pierre Onassis, em 2005.


Emprestando sua voz para projetos como a trilha sonora do filme Ó Paí, Ó (ao lado de Caetano Veloso), Jau se firma também como um cantor baiano que passeia pelo universo do cinema brasileiro, esta outra arte que avassala e surpreende o mundo...como, aliás, a voz de Jau . 


A voz de Jau tem pele, tem sangue e pulsa. Ela sangra a canção e a dor vira beleza. Uma voz que tem textura, que é líquida e chove sobre nossos rostos num dia de verão.

Jau pela primeira vez em Aracaju. Você vai perder?

Axé a todos os nossos irmãos!
Deus é tudo acima de todas as coisas!
Olorum Colofé!